O CD solo de Nasi

MÚSICA

O Folhateen ouve em primeira mão a estréia do vocalista do grupo independente mais consistente do BRock, o Ira!; saiba por que Nasi encarnou o personagem-mutante Wolverine

Super-herói em vôo-solo

SÉRGIO DÁVILA
DA REPORTAGEM LOCAL

Tarde, dia de calor, abafado, daqueles que fazem a cabeça pensar besteira, o corpo agir sem pensar, e todos -dia, calor, corpo e cabeça- acabam dando trabalho extra à polícia no final da noite. Eu caminho em direção ao nosso encontro. Passo pelo bar O Trabuco, cujo luminoso (agora apagado) é um três-oitão.
Nós nos avistamos no centro velho da Cidade do Pecado, no restaurante em frente à banca de flores. Somos atendidos por um garçom que lembra o ator que interpreta o professor Charles Xavier, de "X-Men", fazemos os pedidos e o despachamos logo. Ele pede vinho. Ele pede um petit gâteau com sorvete de creme. Ele não tem pressa.
Ele é Nasi, do Ira!, o Wolverine do rock nacional. Vocalista, letrista e músico, o paulistano Marcos Rodolfo Valadão, 44, três filhos, forma no Ira! desde 1982, com o guitarrista Edgar Scandurra, o grupo independente mais consistente do BRock, tão consistente e independente quanto o personagem de HQ que ele escolheu como símbolo de seu primeiro álbum solo, que o Folhateen ouviu em primeira mão.
"Onde Os Anjos Não Ousam Pisar" é o nome do CD, que traz músicas e estilos que ele sempre quis gravar, da maneira que sempre quis gravar, com os parceiros com quem sempre quis gravar, mas que, por um motivo ou outro, não cabiam no formato do Ira!. Traz ainda o músico caracterizado de Wolverine na capa, com as garras de adamantium (na verdade, de um metal qualquer), a camiseta de lutador, o charuto na boca, as suíças que juntam o cavanhaque à cabeleira.
Assim como o personagem de ficção, Nasi é um anti-herói num mundo -o dos roqueiros brasileiros estabelecidos, ricos e famosos- de heróis. "Existe uma relação forte de alter-ego minha com o personagem", diz ele, que até então preferia quadrinhos de terror e eróticos, especialmente os do italiano Milo Manara.
"De tanto me chamarem de Wolverine, pela costeleta e por uma certa irascibilidade de existir, de atitude, digamos (risos), fui ver quem era e me interessei pelo personagem", conta.
Num mundo cada vez mais careta e reacionário, diz Nasi, ele gostaria que os jovens conhecessem Wolverine, daí a escolha: "Tem muito super-herói que é o braço direito da polícia, que é contra os marginais, que representa a América. O Wolverine não representa nada, é politicamente incorreto, nem é mau e nem completamente bom, como todos nós, contraditório."
Uma foto para uma revista mensal o levou a escolher essa persona, que acabaria influenciando seu primeiro CD sem a banda que o lançou no mundo musical e fora do trabalho paralelo que desenvolve em outro ritmo, a Nasi & Os Irmãos do Blues. Uma das faixas é justamente "Wolverine Blues", que diz:
"(...) Tenho arrastado/Milhares de grandes e puros amores/E milhares de milhares de amorzinhos sujos./ I love this game!"
Outra inspiração é o filme "Sin City", de 2005, em que o diretor Robert Rodriguez leva para as telas o pesadelo de quadrinhos do Quentin Tarantino do meio, o artista Frank Miller. "Sin City" realmente dá um salto cinematográfico no campo de adaptação de quadrinhos para o cinema. Tem aquela coisa da ultraviolência quase cômica, uma bidimensionalidade reforçada pelo preto-e-branco... É perfeito."
E essa história de mundo careta e reacionário? "É um momento triste. Veja o George W. Bush. Veja o novo papa. Aliás, a melhor definição de rock'n'roll foi ele quem deu. Chamou de "o teatro das paixões". Pejorativamente, é claro, mas é perfeita. Quando vi isso, pensei: "Se o rock ainda preocupa o papa, então está vivo, nem tudo está perdido"."
Nem tudo está perdido? Em termos. "O rock dos anos 80 se transformou num pastiche bem-comportado. As exceções da época é que estão sendo redescobertas agora no exterior, como Akira S, Mercenárias; o Smack está voltando. É assim que funcionam as coisas no mundo de hoje, muito rápido, as ondas vão e voltam muito rápido. Só os anos 80 é que continuam durante 20 anos", diz ele.
Nasi gosta muito do rock atual, "essa cena nova-iorquina, nova, simples mas boa", nomes como Strokes, Killers, White Stripes, "e também a paulistana, como Cansei de Ser Sexy, na medida em que é despretensiosa e ao mesmo tempo alcança". Para ele, "o Brasil inteiro vive uma cena legal, de grupos fazendo música de banda, com um glamour e uma fúria que eu acho interessante, diferente da década de 80, que tinha muita coisa ruim, como todo movimento musical hegemônico, que tem o melhor enterrado pelo lixo que vai ser produzido em série para vender", provoca.
"Onde os Anjos Não Ousam Pisar" vem na esteira do sucesso do "Acústico" do Ira!, que vendeu 250 mil cópias e lotou shows pelo Brasil. "Agora ficou um pouco aquela sensação da letra de "Dias de Luta': "O que cantarei depois?". Ainda não sabemos."
Ele usa a mesma frase da música quando lembra de entidades de jovens estudantes que, ligadas a partidos políticos que apóiam o governo Lula, pagam por sua militância e facilitam seus protestos e comícios fornecendo ônibus e infra-estrutura. "Essa juventude estatal é um absurdo. Se os jovens não se revoltarem quando são jovens, vão fazer isso quando? Depois de velhos?"
Resume: "Se hoje eu canto essa canção, o que cantarei depois?".
O quê?