EUA, Washington, homem, de 36 a 45 anos, português, inglês, espanhol e francês

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Do Irã - ela, hoje



Escrito por Sérgio Dávila às 19h27
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Do Irã - seqüestradora não se arrepende - 2

Eu - A sra. se arrepende?

Massoumeh Ebtekar - Olhando para trás, não vejo lugar para arrependimento.

Eu - Faria de novo, hoje?

Ebtekar - Hoje é diferente. Ainda há o antagonismo com os EUA, mas as circunstâncias são outras. Olhando para aqueles dias, no entanto, creio que foi uma ação justificada, que significou muito não só para a Revolução Islâmica como para a luta da liberdade no mundo. Naquela época, o império norte-americano era um mito, parecia invencível.

O que nós fizemos foi acabar com esse mito e dar um exemplo aos povos do mundo, de países africanos, asiáticos, latino-americanos, de movimentos democráticos e de libertação, que perceberam que era possível enfrentar o império. Sim, sofremos depois com os embargos, tivemos dificuldades, mas avançamos, somos livres e independentes.

Eu - Mas por que invadir?

Massoumeh - Nós achávamos que os EUA estavam conspirando para minar uma revolução então ainda muito jovem. Nós tínhamos apenas um governo interino, não contávamos nem com um Parlamento. E, como estudantes de história, estávamos familiarizados com os precedentes de intervenções americanas, como no Chile, por exemplo. Um dos heróis que estudávamos, além de Che Guevara, era Salvador Allende. Quando o xá recebeu asilo dos EUA, decidimos tomar uma ação drástica, algo que impedisse os americanos de seguir adiante com seu plano de golpe.

Eu - Com a ação, no entanto, além de ferir as leis internacionais, ajudaram a isolar ainda mais o Irã.

Massoumeh - Consideramos todas as opções e chegamos à conclusão de que uma negociação não era possível, pois ninguém escutaria a voz de um grupo de estudantes. Protestos? Ninguém levaria a sério. Passeatas? Idem. Então, alguém sugeriu uma ocupação pacífica da embaixada. Pensamos na época que com isso pelo menos poderíamos parar o ritmo do golpe que estava sendo tramado e mandaríamos um aviso importante ao mundo.

Nós éramos intelectuais, não soldados ou terroristas, mas estávamos desesperados. Por isso tomamos atitudes não-convencionais, que sabíamos ser contra as leis internacionais. Mas sabíamos também que as leis internacionais não fariam nada por nós se houvesse um golpe de Estado.

Eu - O Irã e os EUA caminham para um novo enfrentamento, dessa vez em torno da questão nuclear. O que a sra. acha que acontecerá?

Massoumeh - Espero que os americanos apreciem a oportunidade que têm agora de poder negociar. Eles ainda não digeriram a Revolução Islâmica, não sabem o que acontece por aqui, não têm informações precisas, tudo o que sabem vem de grupos contra-revolucionários no exílio. A energia nuclear para fins pacíficos tem o apoio unânime do povo, que pode até não se unir no apoio a esse governo especificamente no poder agora. Mas na questão de defesa territorial estamos unidos.

Eu - A sra ajudou a implantar esse regime. "República islâmica" não é uma contradição em termos?

Massoumeh - Essa é uma questão que intriga estudiosos há vários anos. Desde a Revolução Islâmica, tivemos muitas experiências práticas de democracia num contexto islâmico. O Irã é uma república islâmica por insistência do imã Khomeini (1902-1989). Nos primeiros anos pós-revolução, havia muita discussão, alguns queriam fazer do país um Estado islâmico, mas o imã queria uma república, sem que o Estado fizesse sombra. Houve um referendo, e a sua escolha venceu. Nós temos eleições diretas, um sistema muito democrático, que nem mesmo os EUA têm. Eles não elegem o presidente por voto direto, por exemplo, como nós fazemos.

Eu - Mas lá existe a divisão entre igreja e Estado, que aqui se confundem.

Massoumeh - Talvez o Irã seja um novo modelo de governo não só para países islâmicos mas para o mundo. Você vê tantos escândalos em governos do mundo inteiro, talvez os princípios religiosos sejam um fator que mantenha o político na linha, um fator de garantia ética do político...

Eu - Então a sra. acha que o Irã vive numa democracia hoje?

Massoumeh - Essa é uma questão muito difícil. Sabemos que temos problemas sérios e desafios. Temos interpretações diferentes da Constituição, rixas políticas, partidos que não toleram a abertura que uma sociedade islâmica tem de ter. Tivemos as reformas, agora temos um partido conservador no poder que às vezes parece desejar mais controle sobre a sociedade, o que se diz, se escreve. Mas avançamos muito.

Alguns são pessimistas, dizem que islamismo e democracia são incompatíveis, que poucos são como o ex-presidente Mohammad Khatami (1997-2005), que podem tolerar opiniões da oposição, ou como os reformistas, que podem acomodar os princípios da democracia, como liberdade de expressão e de escolha, com os princípios islâmicos.

Eu - A sra. foi a primeira vice-presidente do país. Quão difícil é ser mulher no Irã?

Massoumeh - É desafiador, como em qualquer outra sociedade. Você encontra pessoas com mentalidades diferentes, lutas de classes que impedem que você evolua, visões tradicionais que tentam se impor em nome do islamismo, erroneamente, eu devo dizer, em nome do islamismo. Tudo isso impede que a mulher avance, que se expresse.

Eu - A sra. vê uma mulher sendo eleita presidente do Irã?

Massoumeh - Não há lei oficial que proíba uma mulher de concorrer à presidência, embora alguns membros do Conselho de Guardiães tenham expressado opinião em contrário. A Constituição traz um termo ambíguo, "rejal". A palavra "rejal" tem como primeira conotação "homem", mas o Corão fala do "rejal" de maneira geral, incluindo mulheres. Tudo reside na interpretação desse termo...

Eu - Antes de essa entrevista começar, eu não pude cumprimentá-la com um aperto de mãos, e a sra. teve de me receber vestindo um xador. De acordo com a lei islâmica, a sra. tem metade do valor jurídico de um homem. Tudo isso não a incomoda?

Massoumeh - Como ser humano, de acordo com o Islã, sou totalmente igual a um homem, ao meu marido. Dito isso, homem e mulher foram criados para papéis diferentes na sociedade, têm diferentes responsabilidades. Isso não significa que um seja inferior ao outro, mas que há uma divisão de trabalhos. A família, por exemplo: o homem é responsável legal e economicamente. Acho que a mulher fica até aliviada por isso.

Eu - Mas são necessárias duas mulheres para contrapor o testemunho de um homem.

Massoumeh - É um pouco mais complicado do que isso. Há instâncias em que se pode ter até uma criança como testemunha. Muitas vezes, direitos individuais, liberdade individual, conflitam com os direitos da família.

O.k, eu quero ser livre como indivíduo, mas eu tenho filhos, sou casada, não posso largar tudo. Daí, por exemplo, a necessidade no Irã da permissão de um homem para que a mulher viaje para o exterior. Isso faz parte do contrato que garante a existência da família. Então, é um pouco mais complicado do que o Ocidente vê...



Escrito por Sérgio Dávila às 19h23
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Do Irã - seqüestradora não se arrepende - 1

Em 1979, dezessete estudantes iranianos decidiram invadir a Embaixada dos EUA em Teerã como maneira de tentar interromper o que eles acreditavam ser um golpe de Estado tramado pela CIA para acabar com a Revolução Islâmica e recolocar o xá Reza Pahlevi no poder. Entre eles estava Massoumeh Ebtekar.

Aos 19 anos, a estudante de história era a única fluente em inglês. Tomado o prédio e seqüestrados os 52 diplomatas, incluindo o embaixador norte-americano então, Massoumeh foi escolhida a porta-voz do grupo. Por usar xador, a veste feminina tradicional islâmica, o que lhe dava uma aparência de uma jovem freira, foi batizada pela mídia de "Sister Mary" e pelos reféns de "Screaming Mary", por estar sempre gritando palavras de ordem em inglês.

Os diplomatas ficaram sob poder dos estudantes por 444 dias, numa das maiores crises recentes entre países do Ocidente e do Oriente Médio, que ajudou o então presidente democrata Jimmy Carter a perder a reeleição para o republicano linha-dura Ronald Reagan.

Na manhã de sábado, "Sister Mary", ou a professora de imunologia Massoumeh Ebtekar, 46, da Universidade Tarbiat Modares, me recebeu. Depois da invasão, ela virou a primeira vice-presidente da história do Irã, fundou um partido reformista, criou um jornal, dirigiu uma ONG. "Não vejo lugar para arrependimento", diz ela, sobre invasão. "Demos um exemplo ao mundo."

Sua entrevista, no próximo post.

 



Escrito por Sérgio Dávila às 19h22
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Coluna América (do Irã)

De: Bush
Para: Ahmadinejad

por Sérgio Dávila

Depois de se lembrar de que aqui se tira sapato, Faroud recebe o repórter em sua casa, traz o prato de doces obrigatório, o chá quente já com açúcar e o "taarof", costume iraniano em que o anfitrião insiste várias vezes para que o convidado comece a comer primeiro.

Então dispara. "Sabe qual foi a resposta de Bush à carta de Ahmadinejad? Um SMS perguntando: 'Você me ensina a rezar?'." A piada, simples e direta como todas as piadas que me foram contadas pelos jovens iranianos, ilustra o clima das ruas de Teerã. Em seus próprios países, ninguém leva muito a sério os dois presidentes que mais polarizam o mundo hoje em dia.

A improvável correspondência via mensagens de celular entre o iraniano e o norte-americano revela o quanto ambos têm em comum para a opinião pública, pelo menos nessa parte do mundo, descontado o nada pequeno detalhe de um comandar o país mais rico e poderoso do mundo e de o outro ser a atual face civil de uma ditadura religiosa.

Ambos foram eleitos quase por acaso, surpreendendo a todos. George W. Bush no "tapetão" da Suprema Corte, depois de Al Gore o derrotar em 2000, Mahmoud Ahmadinejad pelo Conselho dos Guardiães, que proibiu a candidatura de um terço dos candidatos reformistas nas eleições de 2005. Os dois são extremamente religiosos, apesar de Ahmadinejad ser o primeiro presidente civil a assumir o país em anos -"civil", no caso iraniano, significa sem nenhuma posição na igreja.

Bush disse que responde a "um pai maior" quando indagado se consultara o ex-presidente Bush pai antes de invadir o Iraque (sobre isso, Madeleine Albright, secretária de Estado dos governos Carter e Clinton, matou a charada: "O Deus de Bush não é o mesmo Deus de Abraham Lincoln", disse ela. "Um diz 'Deus está do nosso lado', o outro disse 'Que nós estejamos ao lado de Deus'."

Um vídeo de Ahmadinejad relatando aos aiatolás como foi um encontro recente com líderes no exterior é moeda corrente nos e-mails de iranianos, que adoram mostrar aos estrangeiros interessados. Com o olhar transfigurado, o presidente diz: "Naquele momento, todos da sala pararam ao perceber que uma luz branca saía de mim".

O projeto de poder dos dois é parecido: de hegemonia, uma mundial, outra regional -e é exatamente aí que o segundo se torna a pedra no sapato do primeiro. Bush quer o planeta a seu favor, Ahmadinejad tem sonhos pan-arabistas, deseja ser o símbolo de todos os que têm sentimento antiamericano e anti-sionista na região -e não são poucos. Conseguirá o respeito e o temor dos árabes, que os persas em geral desprezam, se fosse a primeira potência do Oriente Médio a ter armas nucleares, Israel excluído.

Aí começam as diferenças. Mesmo com toda a ação inconstitucional da NSA, de monitorar telefones, e-mails e internet, George W. Bush é presidente de uma democracia na qual os direitos civis são respeitados e há liberdade de expressão. Já Ahmadinejad comanda um país em que a mulher vale menos que o homem e assim é tratada, não existe imprensa livre e quase todas as atividades da sociedade são controladas pelo Estado e sofrem censura.

A onipresença do governo e do islamismo mais radical oprimem o visitante ocidental num primeiro momento. Mas a sensação vai cedendo aos poucos, conforme cresce o contato com um povo doce, que recebe de braços abertos o estrangeiro, qualquer estrangeiro. Que Bush e Ahmadinejad troquem logo uma mensagem pelo celular, é o que Faroud e a maioria deseja, e que esta não diga: "É guerra".


Nesta semana, excepcionalmente, a coluna "América" não foi escrita na América.


Escrito por Sérgio Dávila às 04h31
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Diário do Irã

"MÁRTIRES" 1

"Eu amo meus filhos, mas ser uma mártir eu amo mais." O outdoor, com uma voluntária palestina com uma AK-47 num braço e uma criança no outro, enfeita uma das principais avenidas de Teerã. "A ação dessas oito mártires palestinas custaram a vida de 150 sionistas", diz o outdoor ao lado, com flores e os retratos de oito mulheres.

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"MÁRTIRES" 2

Faz parte da propaganda do Ministério dos Mártires, facção obscura que o governo faz questão de esconder, especialmente em tempos de negociação nuclear com o Ocidente.

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PODER JOVEM

Segundo a agência de notícias oficial iraniana, 10% de todos os assassinatos cometidos em Teerã têm como autor um menor de idade. Já o equivalente ao Ministério da Saúde adverte: 3,1% dos estudantes secundários e 20% dos universitários iranianos correm o risco de virar viciados.

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JOGO FEIO

"Joga bonito", o comercial da Nike em que o brasileiro Ronaldinho é estrela, é o hit do Canal 2, que mostra filmes de Hollywood censurados e que não pagam royalties aos estúdios.

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JOGO BONITO 1

Tem mais brasileiro no futebol. Carbone é treinador do Ararat Club, da colônia armênia local. O time, que conta com três brasileiros (Wagner, Leilson e Fidalgo), bateu o Nasaji no último domingo e disputa uma vaga de acesso para subir de divisão no domingo que vem.

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JOGO BONITO 2

Já Renê Simões, ex-técnico da Seleção Feminina de Futebol, agora treina o time olímpico masculino iraniano, e Edson Tavares, ex-Volta Redonda, comanda o Sepahan Esfahan, um dos principais times do Irã.

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JOGO BONITO 3

E o presidente Mahmoud Ahmadinejad, notório fanático por futebol, prometeu um bônus de 50 mil euros aos jogadores do Team Melli ("time nacional") se passarem da primeira fase da Copa do Mundo da Alemanha.



Escrito por Sérgio Dávila às 04h20
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Do Irã - O Blogueiro num coffee shop



Escrito por Sérgio Dávila às 04h19
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Do Irã - Blogueiro preso e torturado

Antes de dormir, logo que acorda, no meio do dia, de seu celular, dos internet cafés, Hanif Mazrooei, 27, faz o que cerca de 700 mil iranianos fazem: escreve em seu blog. Publica suas opiniões e fotos no diário virtual que mantém na rede. Filho de um conhecido jornalista iraniano, Rajabali Mazrooei, preso diversas vezes por suas opiniões e hoje presidente da associação dos jornalistas de oposição, Hanif tem a idade da Revolução Islâmica e sabe os perigos de fazer críticas a ela.

Só não achava que o governo estivesse tão preocupado com o conteúdo de seu site, o Rouydad ("acontece", em farsi). Até o dia em que recebeu uma carta da polícia, se apresentou (com a mãe), foi preso e entregue à temida polícia política iraniana, nas mãos da qual ficou 66 dias, numa solitária, onde afirma ter sido torturado. O site foi tirado fechado.

Solto, Hanif Mazrooei fez o que outros colegas seus fizeram na mesma situação: abriu outro blog, que leva seu sobrenome e o slogan "bloco de anotações sem leitores". Por enquanto, ainda no ar. Leia sua entrevista:

Eu - Como você foi preso?

Hanif Mazrooei - A polícia me mandou uma carta pedindo que eu me apresentasse para responder questões. Eu pensei em fugir, mas consultei meus pais e meu advogado e eles disseram para eu fazer como a carta dizia. Fui lá no dia marcado. Fui preso na hora.

Eu - E então?

Mazrooei - Fui vendado e tive as mãos algemadas nas costas. Aí, me mandaram para os "amaken" (a temida polícia política iraniana). Eles me mantiveram sessenta e seis dias numa cela de dois metros por 3,5 metros, numa prisão clandestina. Cada vez que vinham me buscar, eu tinha de me vendar. Nesses mais de dois meses, não vi o rosto de ninguém.

Eu - Para onde o levavam, quando o tiravam da cela?

Mazrooei - À sala de interrogatório. Ali eu era torturado cotidianamente. Faziam perguntas sobre minha orientação sexual (Mazrooei é heterossexual). Eu respondia: "Quem vocês querem enganar com essas perguntas? Eu sei que estou aqui por conta do conteúdo político de meu site".

Eu - Antes de ser preso, você achava que o que escrevia poderia lhe causar problemas?

Mazrooei - Mais ou menos. Um mês antes alguns amigos meus blogueiros, com sites com teor parecido com o meu, começaram a ser presos. Quando isso aconteceu, eu saí por um tempo de Teerã, mas resolvi voltar. Pensei que tinham desistido de mim.

Eu - Você continua blogando, e seu site continua político. Não teme ser preso de novo?

Mazrooei - Não, já estou acostumado com a pressão. Todos os dias, alguém da "amaken" me liga e comenta um texto que fiz naquele dia, ou no dia anterior. É um jogo psicológico. Eles querem mexer com minha cabeça, mostrar que continuam me vigiando, que não me esqueceram. Às vezes, dão conselhos: "Por que você não é um bom rapaz?" Outras vezes perguntam: "Por que você escreveu isso?"

Eu - Você vê possibilidade de mudança no Irã nos próximos anos? Acha que deve ter?

Mazrooei - Nas últimas eleições presidenciais, cheguei a fazer campanha por meu candidato (Mostafa Moeen, reformista, ex-ministro dos governos Rafsanjani e Khatami e primeiro político iraniano a ter um blog), que acabou em quinto lugar nas votações. No dia, fiquei com raiva, mas hoje acho bom que Ahmadinejad tenha sido eleito. O povo iraniano precisa dessa lição.

Eu - Como assim?

Mazrooei - As coisas só vão mudar no Irã quando as pessoas quiserem que mude. O regime iraniano não tem medo de nada, só do povo. E só a fome promove mudanças. Enquanto isso, o governo levanta cortinas de fumaça, como a questão nuclear. Estamos perdendo tempo com essa questão, só fazemos inimigos no mundo com ela, e há assuntos internos muito mais importantes.

Eu - Você acha que a tecnologia será usada pelo governo com fins pacíficos?

Mazrooei - Não, acho que também servirá para construir armas. O governo quer unir o povo em torno do regime com essa questão. Faz sentido: se os outros países criticarem o Irã por conta do desrespeito aos direitos civis, não haverá união interna em torno de uma resposta única. Agora, se a crítica é sobre o direito ou não de o país ter energia nuclear, é mais fácil você ter consenso.

Eu - Não tem medo de falar essas opiniões publicamente?

Mazrooei - Não.



Escrito por Sérgio Dávila às 04h16
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Do Irã - A revolução será por SMS

No meio da semana passada, os estudantes da Universidade de Tecnologia Amirkabir que chegaram para as aulas logo cedo deram de cara com uma construção de lona fechada erguida no meio do campus. No Irã pós-revolução, uma tenda no meio do campus significa que os Sepah, nome do Exército Revolucionário ou Guarda Revolucionária mas que os locais utilizam pejorativamente para qualquer membro mais radical do governo, pretendem ali enterrar "mártires" (pessoas que morreram em nome do Islã) e erguer um memorial.

Já aconteceu no campus central da Universidade de Teerã, onde os corpos de doze soldados desconhecidos da Guerra Irã-Iraque (1980-1988) foram enterrados no centro da quadra de futebol de salão, que hoje virou o maior palco da cidade das orações do meio-dia das sextas-feiras, as principais da semana. Isso não iria acontecer tão facilmente na Amirkabir, ex-Politécnica, decidiram os estudantes naquela manhã. A universidade é uma das mais combativas do país e foco de preocupação constante do presidente Mahmoud Ahmadinejad, que trocou de reitores e colocou um aliado assim que assumiu.

Os primeiros alunos foram disparando SMS, mensagens via celular, para seus colegas, em "fingilish", como chamam o farsi fonético escrito em alfabeto latino. Em meia hora, o campus estava tomado por 500 pessoas, que cercaram a tenda, fechada e guardada por soldados. Os estudantes exigiam ver seu interior ou falar com o reitor. Como este não aparecesse, começaram uma contagem regressiva, no número 60. Antes do 30, ele saiu de dentro da tenda e foi negociar com a massa.

Não se sabe se haverá uma nova revolução no Irã, como a de 1979, em que os estudantes ajudaram a colocar os aiatolás no poder. Se ela acontecer, é provável que seja convocada por SMS. O iraniano é um dos povos mais à vontade do mundo com novas formas de comunicação. Já foram a segunda nacionalidade não-americana do Orkut, atrás apenas dos brasileiros. Hoje, a freqüência caiu, pois a visita passou a ser controlada pelo governo, que suspeita que os jovens usavam o site de relacionamentos do Google para mercado de drogas e prostituição.

São a quarta língua dos blogs, respondendo por 700 mil dos 100 milhões de diários virtuais que, estima-se, estão em atividade no mundo. O primeiro é de 1999, e a maioria é escrita em farsi ou "fingilish", mas há muitos de ótima qualidade em inglês, como o Tehran Avenue. Também aqui o governo está de olho. A primeira prisão de blogueiro foi feita em já 2003. No começo da semana, um dos membros do equivalente local da Suprema Corte propôs que os blogs sejam tratados "como as fronteiras do país".

Segundo o legislador, cada texto escrito num blog, cada foto a ser colocada no ar, cada comentário sobre um texto deve ser aprovado previamente por um censor. Bastou para que os sites fossem inundados de mensagens ridicularizando a proposta. "É tão absurda que ninguém levou a sério", disse um fotógrafo que não quer ser identificado nem com as iniciais pois ele próprio é um blogueiro.

O regime claramente patina na questão do controle das novas tecnologias e não é páreo para a velocidade com que os internautas iranianos agem. Quando os blogs começaram a dar problema a seus autores, a plataforma de preferência passou rapidamente a ser o SMS, sigla em inglês para "short message service", serviço de mensagens curtas, que o iraniano chama de "êssémés", e as autoridades, de "payan kotah" (mensagem curta, em farsi).

Antes mesmo da manifestação-relâmpago da Universidade Amirkabir, quatro pessoas tinham sido presas, acusadas de "payan kotah" com textos inadequados às leis iranianas e o islamismo. Mesmo assim, os SMS continuaram.



Escrito por Sérgio Dávila às 04h14
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O aiatolá Saanei



Escrito por Sérgio Dávila às 04h13
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O aiatolá da Internet

"Aiatolá Saanei: estou pensando em fazer uma lipoaspiração. Estarei infringindo a lei islâmica?" A cada dia, o website www.saanei.org recebe centenas de mensagens como essa, de jovens religiosos que querem saber até que ponto os costumes do mundo moderno são tolerados pelo Islã. Eles sabem que podem contar com o aiatolá Yusuf Saanei, esse "marjae taghlid" que também é conhecido como o "aiatolá da Internet".

"Marjae taghlid" é um termo em persa que quer dizer "fonte de imitação" e é uma exigência que o Islã faz a seus seguidores: que eles escolham um aiatolá ou líder religioso que tenha essa qualificação e se mirem no exemplo dele e em seus escritos. Enfim, que tenham um mentor. Para se qualificar, tal líder deve ser um expert nas leis islâmicas e ter publicado livros a respeito. Saanei responde a ambos requisitos.

Tem um a mais. É um dos mais vocais críticos do regime e tem o que os locais chamam de "cabeça aberta" em relação à religião, o que o faz muito popular entre os jovens mais tradicionais, preocupados em não infringir a sharía, a terrível lei islâmica. "Agora, contamos com 20 pessoas trabalhando em nosso site, mas, se eu tivesse orçamento maior, precisaríamos de 100 para responder a todas as perguntas que chegam", conta o aiatolá.

Todos os dias, alguém de seu jovem staff imprime as principais questões, que o líder xiita, 68 anos, considerado pelo aiatolá Khomeini (1902-1989) um dos novos talentos revelados pela Revolução Islâmica de 1979, examina. Depois do almoço, fecha-se em sua biblioteca de mais de 3 mil livros de estudiosos do islamismo, para então preparar sua resposta, que será enviada por e-mail no dia seguinte.

Leia a seguir sua entrevista:

Eu - Islã combina com Internet, weblog, e-mail?

Ysuf Saanei - O islamismo nunca se opôs à ciência, à tecnologia, ao progresso. Sempre foi conhecido como a religião dos cientistas. Além disso, a nova mídia é boa para divulgar a religião entre os jovens.

Eu - Quais são as perguntas mais freqüentes que o sr. recebe e de onde vêm?

Saanei - A maioria é sobre a relação entre o islamismo e assuntos modernos, mas também questões políticas. A maior parte vem do Irã, mas temos internautas do mundo inteiro (calcula-se que haja 120 milhões de xiitas, facção do islamismo predominante no Irã, no mundo).

Eu - A sharía, a lei islâmica, não é ultrapassada ou muito dura e difícil de ser seguida pelos jovens de hoje em dia?

Saanei - O islã que eu conheço é fácil de obedecer. Alguns homens no poder ou pessoas sem conhecimento é que dão essa imagem de que é difícil.

Eu - O sr. acha que os ideais da Revolução Islâmica ainda falam ao coração dos jovens ou eles quererão fazer a própria?

Saanei - Os jovens amavam a Revolução quando o imã Khomeini (1902-1989) estava vivo, mas depois disso tivemos problemas. E sei que os jovens não gostam desses problemas.

Eu - E como isso vai acabar?

Saanei - Se os homens do poder se comportarem direito com os estudantes das universidades, como o imã Khomeini fazia em sua época, quando eu era estudante, tudo vai acabar bem. Do jeito que alguns deles estão se comportando é um problema...

Eu - O presidente Mahmoud Ahmadinejad escreveu uma carta ao presidente George W. Bush, ainda sem resposta. Se fosse o sr. o que escreveria?

Saanei - Esses problemas dos homens no poder são muito específicos, eu tenho outros mais importantes para tratar. Os homens no poder deveriam se limitar à política. Os políticos deveriam falar de política, e deixar o trabalho religioso conosco.



Escrito por Sérgio Dávila às 04h12
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Do Irã - Os jovens

Eles ouvem rock. Os conjuntos O-Hum e 127, undergrounds, com CDs oficiais, que passaram pela censura, mas faixas alternativas, gravadas em shows proibidos feitos no subsolo de prédios velhos de Teerã e distribuídas pela internet. Também rap persa, em geral versões em farsi de sucessos de Eminem e 50 Cent. Ou viajam às vizinhas Dubai e Istambul para shows de Roger Walters, Ian Anderson e Mark Knopfler.

Eles usam drogas e bebem álcool. O drinque mais popular mistura a cerveja Delester Golden, a marca mais popular do país, sem álcool como manda o Islã, à vodca Absolut, entregue em casa por serviços ilegais de delivery que todo o mundo sabe que existem. Fumam maconha, que chamam de "grass", grama em inglês, quando há mais velhos por perto, ou "alaf", grama em farsi, quando entre eles. Plantam a erva em vasos nos seus quartos, seguindo instruções que pegam de sites de cafés holandeses.

(Ópio, não, ópio é para os mais simples ou para os mais velhos. Entre estes, os que ainda usam se reúnem em apartamentos nas quintas-feiras à noite, véspera do feriado, deitam-se em almofadas jogadas pelos tapetes em torno de um fogareiro, fumam e conversam. O papo de viciados em ópio, "pamanghali", virou gíria para "conversa furada".)

Eles fazem sexo. Depois de um longo processo, mas fazem. Conhecem as "dawff" (não há tradução, mas é gíria cujo equivalente em português seria "gatinhas") em chats na rede, marcam encontros num dos dois shoppings mais freqüentados, o Millad e o Golestan, e depois as convidam para comer algo nos coffee-shops da rua Gandi. A noite pode acabar na casa de um amigo ou de pais mais liberais.

Antes, passeiam pelas alamedas dos shoppings, fazem compras em lojas de grifes verdadeiras como Puma e de marcas falsificadas como Gap. Convidam as "dawffs" para comer um pote de "zorat" (milho, servido em grãos com limão e ervas). Ostentam como se fossem celulares novos os curativos de operações plásticas para diminuir o nariz que fizeram em hospitais de luxo.

Num país em que a maioria da população nasceu no ano ou depois da Revolução Islâmica (1979), os jovens iranianos caminham rapida e perigosamente para o que os mais antigos chamam de "ocidentalização" dos costumes. "Se continuarmos assim, logo faremos uma nova revolução para derrubar essa", diz Abolfazl M,, 28, que faz compras pelo Golestan.

Um passeio pelas ruas da cidade freqüentadas pela juventude não-religiosa de Teerã, que é maioria (nas cidades pequenas, a proporção se inverte), mostra uma imagem diferente do país dos aiatolás. Tradição e ruptura se misturam de uma maneira que os locais já não percebem mais. Banafsheh Arap, 22, por exemplo. Ela pinta os cabelos, tira a sobrancelha, mas anda de "rousari", o véu obrigatório que cobre a cabeça. "Eu mesma me maquio, porque os salões de beleza são proibidos aqui", diz ela, estranhando a pergunta.

Turmas sobem e descem as escadas rolantes do Millad quando o muzak dá lugar ao "maghreb", a reza do pôr-do-sol, nos alto-falantes. Ninguém parece reparar. Na fachada do Golestan, um néon com a figura de uma mulher usando xador avisa: "A mulher coberta tem a beleza da pérola dentro da concha". Na porta do mesmo shopping, duas senhoras pagas pela polícia de costumes "aconselha" as meninas mais ousadas (com mantôs mais curtos ou "rousari" berrantes) a irem para a casa e voltarem "mais decentes".

São chamadas pelos freqüentadores, ironicamente, de "fatwa commando" _"fatwa" é um pronunciamento de um líder religioso ou especialista para questões sobre as quais a jurisprudência islâmica não é clara. Dentro, no saguão principal, os retratos dos dois líderes supremos, aiatolás Khomeini (1902-1989) e Khamenei, o atual, olham meninas de jeans de mãos dadas com rapazes que não são seus maridos.

"Não vejo problema nenhum nisso", afirma Behrwz Rezai, 23, vendedor que diz não se interessar por política ou por quem é o presidente de seu país e o que ele está fazendo. "Nós deixamos os outros em paz e só queremos que os outros nos deixem em paz." Ao seu lado, Damin Mikaeli, 22, desempregado, fã de heavy metal, concorda. "Não estamos fazendo nada de mais."

Ainda.



Escrito por Sérgio Dávila às 04h05
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Do Irã - Diário de Isfahan

DEBAIXO DA PONTE 1

Como a venda e consumo de álcool são proibidos pelo Islã, e os estabelecimentos públicos fecham às 22h, a vida noturna de Isfahan acontece debaixo das pontes. Literalmente. A cidade tem dezenas de pontes históricas, de 400 anos, que cruzam o rio Zayandeh, mas os baixos de duas são os mais freqüentados à noite: Sioseh Pol e Pol Khaju _"pol" é farsi para ponte.

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DEBAIXO DA PONTE 2

A Sioseh, literalmente "trinta e três", por conta do número de arcos, é lugar preferido dos casais e das famílias, que também se espalham ao longo do Zayandeh em piqueniques noturnos sobre tapetes trazidos nos porta-malas dos carros.

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DEBAIXO DA PONTE 3

A movimentação mais impressionante acontece sob a Khaju. Ali vão grupos de amigos, em que um canta o sucesso persa do momento e os outros observam, ou jovens mulás, de uma das diversas madrassas locais, que entoam versos do Corão.

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DEBAIXO DA PONTE 4

Sob a Khaju havia dois "coffee shops" muito freqüentados, que utilizavam o descanso de primavera que o xá Abbas construiu em 1650. Foram fechados recentemente. "Havia consumo de ópio", disse a polícia. "Nada disso, é só porque era onde nós encontrávamos as meninas", respondem alguns jovens.

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DOCE VIDA1

Terminada a noite, por volta da uma da manhã, as pessoas se mudam para uma sorveteria num dos extremos da ponte, a única que não fecha cedo e que vende o tradicional "faloudeh", delicioso sorvete de açafrão com calda de limão e fécula de batata.

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DOCE VIDA 2

Doce, aliás, é a especialidade da cidade, conhecida por seus "gaz", confeitos feitos de açúcar, mel e pistache. Os melhores são os que trazem fotografias antigas, em preto e branco, de homens de bigode na caixa. São os fundadores das casas de doce e só são consumidos pelos locais _os turistas preferem os em embalagem mais ocidentais, mais caros e de pior qualidade.



Escrito por Sérgio Dávila às 12h44
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Do Irã - O povo sob a ponte Khaju

 



Escrito por Sérgio Dávila às 12h32
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Do Irã - Isfahan

Sanções? Que sanções? Na quarta, dia em que a comissão de países ocidentais que lidam com a questão atômica iraniana começavam sua reunião em Londres, a cidade-sede da instalação que fabrica o gás UF6, componente fundamental no processo de obtenção da energia nuclear, não estava preocupada com possíveis medidas que venham a ser tomadas contra o seu país.

A bela Isfahan, a jóia do Irã, ex-capital que mantém uma relação com Teerã parecida com a do Rio de Janeiro e São Paulo, de rivalidade cordial, está preocupada com seu turismo. Com o metrô que a Prefeitura quer fazer sob a Chahar Bagh (literalmente, "quatro jardins" em farsi), avenida de quatrocentos anos que cruza a cidade. Com a falta de emprego. Não com sanções.

A principal discussão nas rodas dos "bazari", os comerciantes que se enfileiram ao longo da grande avenida, é o metrô que a Prefeitura quer construir, destruindo uma via que foi considerada patrimônio da humanidade pela Unesco. Fábrica de gás UF6? "Todos esse noticiário só afasta os turistas", diz um motorista de táxi, que já teve de negar várias viagens de curiosos até lá.

Um dos curiosos, que não usou táxi nem teve o acesso negado, era o time da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que iniciou há uma semana viagens por diversas instalações do país, Isfahan incluída, ainda sem conclusão anunciada. No vôo de volta a Teerã, presenciei o esquema especial que envolve a locomoção de um dos agentes, acompanhado de um segurança iraniano que tomou o assento do comissário de bordo para ficar de frente e vigiando os outros passageiros.

"Não sou esperto o suficiente para opinar sobre a necessidade de energia nuclear nesse país, mas sou velho o suficiente para saber que tenho de trabalhar para comer", diz Nasrolah Shayegan, 85, que acaba de fazer a oração do meio-dia voltado a Meca, veste as chinelas, recolhe seu tapete e senta-se ao lado dos objetos que vende no chão, na histórica praça do Imã.

"E não ganho o suficiente para comprar cigarros." Shayegan vende "koluns", campainhas manuais tradicionais que os locais pregam às portas, aos pares _o de batida mais leve para as mulheres, mais forte para os homens. "Assim, o proprietário sabe quem o está esperando lá fora", ensina. Instalação nuclear? "Fica muito longe daqui."

Na verdade, não fica, é meia hora de carro. Localizada numa das saídas da principal rodovia da região, a fábrica que produz o UF6 é uma das grandes empregadoras da região. Sua força de trabalho vem de Isfahan, na maior parte, mas também das pequenas Gayart, Zardanjan e Soreshbadaran.

Da estrada, vê-se apenas uma fileira de árvores estrategicamente colocada para evitar fotos. Atrás das árvores, diz o motorista de táxi, há soldados postados nos telhados da fábrica em posição de tiro, à espera do reflexo de uma lente. A partir daí, o acesso é proibido 99% dos dias, o outro 1% ao sabor dos interesses oficiais.

Em fevereiro, por exemplo, os jornalistas podiam chegar lá _eram até mesmo bem-vindos. Foi quando estudantes e operários favoráveis ao regime ou com pontos a ganhar entre os burocratas locais aceitaram se reunir em frente à fábrica e fazer uma manifestação a favor da autonomia nuclear e contra o "imperialismo norte-americano".

Hoje não.

"Você tem de entender que se trata de um local estratégico", diz o mulá Ali Dabbab, 26, que estuda direito islâmico há 10 anos na madrassa (escola de islamismo, ou "houzeh", em farsi) Chahar Bagh. "Tudo não passa de um grande mal-entendido, causado por estereótipos que a mídia ocidental alimenta."

Às vezes, quando ele sai com a roupa típica, turistas o param na rua e perguntam se ele anda armado ou é terrorista. "O Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, pelo Reino Unido e, é claro, por Israel, quer enfraquecer o povo iraniano, para que eles possam explorar melhor as riquezas do país, como fazem nos países árabes. Por isso que dizem que não podemos ter energia nuclear", recita o blablablá de sempre.

O que ele acha do governo? "Já vi melhores." Da economia? "Pode melhorar." E como garantir que esse governo, nas mãos desse presidente, vá parar na produção de energia para fins pacíficos e não aproveitará a tecnologia para a construção de armas nucleares. "Porque o Islã proíbe a matança em massa. Mesmo se Israel nos atacasse com bombas nucleares, nós não poderíamos atacar de volta", afirma.

Finda a entrevista, o mulá pede licença para fazer uma pergunta: "É verdade que um dos pratos títpicos do Brasil é rato?". Estereótipos não têm nacionalidade.



Escrito por Sérgio Dávila às 12h26
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Diário do Irã

POLÍTICA DO ESTÔMAGO

O fast-food mais antigo de Teerã se chamava Apache. O governo reclamou: "Apache", disseram, é nome de helicóptero que Israel usa para atacar palestinos. A rede virou "Avache", que em farsi quer dizer algo como "aquele que grita".

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LADEIRA ACIMA

O poder mora nas colinas de Jamaran, bairro de Teerã que leva o nome da rua onde vivia o aiatolá Khomeini (1902-1989). Logo após a queda do xá, em 1979, as altas patentes do Sepah, o exército revolucionário, receberam terras ali. Hoje, é uma mistura de classe média alta com burocratas de alto escalão.

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LADEIRA ABAIXO

A cada três casas, uma é guardada por soldados. A mais vigiada é a do aiatolá, onde ainda hoje vivem parentes _sua neta casou com o irmão do ex-presidente Khatami. Já a molecada sobe o morro de carro em busca da vista, para namorar e fumar.

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CORTINA DE FUMAÇA 1

Segundo o equivalente ao Ministério de Saúde local, os residentes de Teerã respiram ar poluído em dois terços do ano. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o trânsito da capital já mata mais de 50 mil pessoas a cada 12 meses.

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CORTINA DE FUMAÇA 2

Os que não morrerem de tosse ou atropelamento morrerão de infarto. Cada corrida de táxi em Teerã é uma viagem a um mundo de sensações: medo, tontura, vertigem, calor, raiva. Como em outras grandes cidades do Oriente Médio (Cairo, Bagdá), as leis de trânsito mais básicas aqui também não "pegaram".

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CORTINA DE FUMAÇA 3

Qualquer carro pode ser táxi, particular ou não. Há milhares de lotações se movimentando pelas grandes avenidas, movidas a buzinas, usadas para chamar a atenção de possíveis passageiros. Para-se em qualquer lugar para apanhá-los e deixá-los.

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TUDO EXPLICADO

Melhor definição para Qom, centro religioso iraniano: "O Vaticano dos xiitas".

 



Escrito por Sérgio Dávila às 18h39
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O aiatolá Montazeri



Escrito por Sérgio Dávila às 18h39
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Do irã - Aiatolá critica o governo

Pouco antes de morrer, Ruhollah Khomeini, pai da Revolução Islâmica do Irã (1979), chamou seu braço direito e avisou que ele seria seu sucessor como líder supremo. É claro que a candidatura do grão-aiatolá Hussein Ali Montazeri passaria pela Assembléia dos Especialistas, que apenas referendaria a decisão, segundo o intricado organograma que regula a relação entre Estado e religião no país, aliás desenhado pelo próprio vice-líder. Mas a perspectiva do poder não calou Montazeri, que mais de uma vez disse que se preocupava com os rumos que a revolução tomava em relação aos direitos individuais, à política econômica e às relações exteriores. Em 1988, um ano antes de morrer, Khomeini o denunciou numa carta. Com o rompimento público, Ali Khamenei acabou sendo escolhido como grande líder, cargo vitalício que é o mais alto da hierarquia religiosa e de governo. Mesmo assim, Montazeri continuou falando. Por suas críticas a Khamenei, cumpriu prisão domiciliar, de 1997 a 2003. Hoje, aos 84 anos, com a saúde debilitada, o mais importante clérigo dissidente iraniano vive em Qom, centro religioso do país, uma hora de carro ao sul de Teerã. Um dos seis grão-aiatolás do Irã e dos menos de 20 do mundo, o xiita aceitou receber a Folha para "uma conversa informal". Cercado de mulás e "saths" (estudantes de religião), com um microfone ligado a um gravador, Montazeri começa reclamando de sua saúde. "Aos 84 anos, a idade só traz problemas", diz. "Mas estou respirando, graças a Deus." Faz a diatribe regulamentar contra os Estados Unidos e logo está criticando o governo iraniano. A conversa informal vira a entrevista abaixo.  

FOLHA - Qual é a sua opinião sobre o Irã neste momento?
HUSSEIN ALI MONTAZERI
- As pessoas estão perdendo a humanidade. Estão deixando de reconhecer que existe um Deus, a morte e a vida após a morte. Isso é fato, assim como é fato que todos vamos morrer, mesmo os mais importantes, mesmo os presidentes. A espiritualidade está diminuindo no mundo, especialmente entre os governantes. Os homens do poder, antes de assumir, prometem todo o tipo de coisa boa para todas as pessoas, depois parecem esquecer tudo.

FOLHA - A impressão que os ocidentais têm do Irã é a de um país fechado, comandado por extremistas religiosos, que amedrontam o povo. É correta?
MONTAZERI
- É correta?

FOLHA - O que o sr. acha?
MONTAZERI
- Os iranianos também têm uma imagem errada dos estrangeiros. As pessoas não deveriam julgar os países sem antes estudá-los. No Irã, não importa onde, há pessoas boas e pessoas ruins. No governo, há pessoas realmente boas, que se preocupam com o povo, mas outras, não. Os homens no poder não deveriam fazer maldades contra o povo. Eles não deveriam se aproveitar do povo porque estão no poder. No exterior é o mesmo. Há muitos anos, quando sofríamos com os soviéticos e os britânicos, pensávamos que os Estados Unidos seriam nosso anjo salvador. Tínhamos boa impressão deles. Quando chegaram, vimos que eram iguais aos outros. Como eles se dão o direito de atacar o Iraque e o Afeganistão e ameaçar o Irã? Os dias em que os países atacavam uns aos outros passaram. Hoje, as pessoas sabem que esse tipo de atitude não tem mais lugar no mundo. De alguma maneira, todos os países têm alguma má lembrança relacionada aos Estados Unidos. Quando o presidente norte-americano visita o exterior, há sempre uma demonstração pública de ódio. O prestígio do país diminuiu.

FOLHA - O programa nuclear iraniano é o mais novo foco de crise na região. O sr. o apoia?
MONTAZERI
- Hoje eu vi na TV Bush dizer que eles devem aumentar o número de instalações nucleares em seu país porque o petróleo vai acabar e eles não podem ser dependentes de outros. Eu pergunto: qual a diferença entre os Estados Unidos e o Irã? Por que não podemos ter um programa pacífico de energia, e os Estados Unidos podem ter tudo o que querem? Por que Israel pode ter armas nucleares, e o Irã não pode ter energia nuclear pacífica?

FOLHA - E se não for pacífica?
MONTAZERI
- Não aprovo o uso de armas atômicas. Estados Unidos e Irã deveriam se acalmar e sentar-se à mesa. Se a questão é proibir armas nucleares, eles podem mandar fiscais para cá, mas simplesmente proibir a energia para fins pacíficos é ilógico.

FOLHA - Os jovens iranianos não parecem mais tão preocupados em seguir o islamismo. A sociedade tem de ser adaptar à lei islâmica ou o contrário?
MONTAZERI - O Corão diz: "Não se pode forçar o islamismo". O problema é que os jovens iranianos têm muitas expectativas em relação ao governo, mas não vêem resultados, e o governo não faz o que prometeu. Então, agora, o povo não está mais com o governo. Precisamos de trabalho cultural, e é preciso que esse governo mude de atitude, para se aproximar do povo e parecer mais confiável aos jovens. O governo não deveria tomar atitudes que fazem o povo odiar o islamismo. O mais importante é a atitude do governo, que não deveria afastar as pessoas do islã, como vem fazendo.

FOLHA - Segundo o jornal "The Washington Post", o presidente Ahmadinejad disse que o 12º imã voltará em dois anos (segundo a tradição islâmica, o fim do mundo será marcado pela volta do 12º e último imã).
MONTAZERI
- Ele está enganado. Disse algo sem pensar quando falou isso. Sabemos pelos escritos históricos que ninguém pode marcar uma data para esse evento.

FOLHA - O aiatolá Khomeini disse que o sr. seria o seu sucessor. O Irã seria diferente hoje se esse desejo tivesse sido cumprido?
MONTAZERI
- Não foi só o imã que me escolheu, mas também o Conselho dos Especialistas. Mas eles mudaram de opinião, e hoje eu sou feliz por não ter esse tipo de obrigação. Não sei se faria diferente se estivesse no lugar deles (risos). O imã Ali (o primeiro dos 12) arrumava os furos de seus sapatos quando seu filho perguntou se o esforço valia a pena, já que ele era o líder do povo islâmico e tinha todo o poder. Ele respondeu: "Se eu não puder arrumar meus próprios sapatos, meu poder e liderança não valem nada". Se você tem uma obrigação mas não pode exercê-la, melhor esquecer. No meu caso, os sapatos são mais valiosos, porque pelo menos estão fazendo algo.

FOLHA - O islamismo pode conviver com a democracia?
MONTAZERI
- Sim. O islamismo é contra a força. Se há um governo que força as pessoas a fazer algo, não se pode chamá-lo de islâmico. Há que se fazer a diferença entre o islã e governos que cometem erros em seu nome.
Quando as pessoas são livres para escolher sua religião e fazer o que querem, o governo só deve coibir os crimes. Isso é democracia: liberdade de escolha do cidadão e capacidade do governo de coibir crimes.



Escrito por Sérgio Dávila às 18h36
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Inspiração...



Escrito por Sérgio Dávila às 18h30
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Diário de Teerã

JOGO DE GUERRA
Durante discurso ontem de manhã, o presidente Mahmoud Ahmadinejad apareceu usando um "chafieh", o mesmo lenço quadriculado que os soldados islâmicos vestem sobre os ombros quando vão para as guerras.

PODE E NÃO PODE
O consumo do álcool é proibido pelo islã, mas o Irã dá um jeitinho. Por exemplo: em Shiraz, região em que nasceu não só esse tipo de uva como provavelmente o próprio vinho, agricultores fazem suas safras clandestinas de fundo de quintal -e vendem aos vizinhos.

NÃO PODE E PODE
O consumo de carne de porco também é proibido pelo islã, mas o Irã dá um jeitinho. Por exemplo: os armênios têm autorização para criar e comer suínos. E álcool também. Às vezes, emprestam um pouco do último para um vizinho mais necessitado, especialmente na região do centro da cidade em que se encontram.

MÚSCULO
É nessa região que brilha o Dehbashian, restaurante com 45 anos de idade, freqüentado pela comunidade. Um dos pratos mais pedidos é o "baghalapolo ba mahiche", músculo de vaca com arroz queimado de panela.

PODE E NÃO PODE
O consumo de ovas de peixe é proibido pelo islã, mas o Irã dá um jeitinho. Por exemplo: produz e exporta o melhor caviar do mundo, o beluga, vindo do esturjão do mar Cáspio, chamado de o verdadeiro ouro negro do país do petróleo.

NÃO PODE E PODE
Sai US$ 80 a latinha, mas é preciso comprar em free shop ou mostrar passaporte de estrangeiro. Mesmo a produção para consumo externo chegou a ser proibida, no auge da Revolução Islâmica, entre 1979 e 1982. Hoje em dia, o caviar está liberado de novo.

TIME REFORÇADO 1
A Embaixada do Brasil em Teerã, que já teve só o embaixador, hoje quintuplicou de tamanho: conta com três diplomatas e tem duas vagas abertas. Além disso, acaba de se mudar para um prédio novo, maior e mais bem localizado.

TIME REFORÇADO 2
"País do café mostra a sua mágica." É tempo de Copa do Mundo e estereótipos no "Hamshari", um dos dois jornais mais populares de Teerã, que traz extensa reportagem em farsi sobre a seleção brasileira.


Escrito por Sérgio Dávila às 18h43
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Do Irã - A oposição se organiza

A reunião aconteceu no subsolo de um prédio do centro de Teerã, numa sala para 100 pessoas em que se acotovelavam 400, sem ar condicionado e com um calor inclemente de 40 graus da primavera iraniana. Para chegar lá, era preciso ter ouvido o boca a boca ou recebido o xerox com o endereço e a lista de quem falaria. Nos nomes, um verdadeiro "quem é quem" dos reformistas.

Como esta, dezenas de reuniões pipocaram nas principais cidades do Irã anteontem. A idéia é fazer do Segundo Khordad, o segundo dia deste mês do calendário persa, que está no ano de 1376, a data nacional da oposição reformista contra o presidente conservador Mahmoud Ahmadinejad. O dia não foi escolhido por acaso: no Segundo Khordad de 1997, Mohammad Khatami foi eleito e iniciou um ciclo liberalizante na Revolução Islâmica (1979), encerrado com a eleição de 2005.

Desde então, os reformistas passaram para a oposição, sofrem perseguição e prisões e são conhecidos como o Movimento do Segundo Khordad. Anteontem marcou o primeiro ano em que a data foi celebrada sem que o presidente fosse um reformista.

A oposição iraniana começa a se organizar, mesmo com ameaça de recrudescimento do presidente ultraconservador, que no mesmo dia mandara fechar um jornal, o "Irã", por conta de uma charge considerada ofensiva a uma minoria étnica _o diário é governista, mas cria precedente perigoso, pois até agora Ahmadinejad não tinha lançado mão deste recurso de intimidação.

"A semelhança entre o atual presidente e o anterior é que a eleição dos dois foi uma surpresa", começa a falar o jornalista Maishalah Shamsol Vaezin, um dos nomes mais conhecidos entre os reformistas. "A diferença é que Khatami não se levava muito a sério, mas o mundo sim, e Ahmadinejad se leva muito a sério, e o mundo não." Ao final da fala, a platéia aplaude por minutos, boaquiaberta com críticas tão contundentes e _ao menos em público_ inéditas ao presidente.

Ao lado de Vaezin, ex-senadores do chamado Sexto Parlamento, reformista, o sexto a tomar posse desde a revolução, substituído em março do ano passado por uma Casa de maioria conservadora, que ajudaria a levar o ex-prefeito de Teerã ao poder meses depois. O ponto alto da tarde seria um discurso de Akbar Ganji, preso diversas vezes por conta de suas opiniões, solto no fim do ano passado depois de uma greve de fome, que viajaria a seguir ao exterior para receber dois prêmios internacionais, entre eles o prestigioso Golden Pen of Freedom (2006) da World Association of Newspaper.

Não que o próprio Khatami tenha sido poupado de críticas. O ex-presidente, que se encontrava estrategicamente no exterior, ainda faz parte do governo _é presidente da Sociedade do Conselho Central de Militantes Clérigos. Como diz um membro do Movimento do Segundo Khordad que pede para não ser identificado por medo de represálias, "não há um ocupante de cargo eletivo na história recente do Irã que deixe o governo depois disso, mesmo que vá para a oposição".

Como tentativa de esvaziar as reuniões, o governo conservador jogou a carta religiosa. Adiantou para o mesmo dia o Segundo Congresso Nacional em Honra aos Issargaran _"issargaran" quer dizer "mártir", palavra que vale para designar todos os mortos em nome do Islã, mas que o povo nas ruas usa principalmente ao se referir aos homens-bomba e participantes de missões suicidas.

Sob organização direta do temível Ministério dos Mártires, cujo titular é um dos homens de Ahmadinejad, a reunião estava marcada a princípio para ontem, o Terceiro Khordad, também conhecido como o Dia Nacional de Resistência, Devoção e Triunfo, mas foi adiantada. Ocidentais e não-religiosos não tiveram acesso ao encontro. Ontem, porém, Ahmadinejad discursaria que o país não pode se mostrar dividido ao inimigo comum _no caso, o Ocidente, mais amplamente, EUA e Israel em particular.

Durante comício pela manhã na cidade de Khoranshahr, no sul do país, usando o mesmo "chafieh", o lenço quadriculado que os soldados islâmicos vestem sobre os ombros nas guerras, o presidente iraniano começou com seu tom de sempre, dizendo que "as chamadas democracias ocidentais planejam acabar com a Revolução Islâmica", mas frisou que o iraniano tinha de se unir.

"Não conseguirão dividir nosso povo", disse Ahmadinejad. "A resistência e a unidade são as chaves para derrotarmos o inimigo." Não é o que pensam as milhares de pessoas que saíram de casa anteontem e correram risco de vida para ouvir outras vozes que não a do presidente.

A briga está só começando.



Escrito por Sérgio Dávila às 18h43
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Diário de Teerã

BEST-SELLER 1
"Ahmadinejad, o Milagre do Terceiro Milênio" é o título do livro que Fatemeh Rajabi irá lançar nos próximos dias, uma biografia muito autorizada do presidente iraniano. A autora vem a ser a mulher do chefe do gabinete presidencial, Gholam-Hussein Elham, o equivalente do cargo que José Dirceu ocupou um dia.

BEST-SELLER 2
A imprensa local ainda não leu o livro, mas já gostou.

LÁ VEM O BRASIL 1
Há cerca de 60 brasileiros e brasileiras vivendo no Irã, pelas contas da Embaixada. Quatro trabalham na Petrobrás, dois na Volkswagen, um é gerente internacional da Benetton -mais suas famílias. Os outros estão espalhados pelo país, com predominância de mulheres de ascendência japonesa que se casaram com iranianos.

LÁ VEM O BRASIL 2
É que o Japão tinha um programa de prorrogar o visto de trabalho de iranianos que se casassem com cidadãs japonesas legalizadas. Muitas brasileiras vivendo naquele país preenchiam os requisitos. Vencido o visto, mudaram-se para o país-natal dos novos maridos.

"CÔLEO" 1
Paulo Coelho (que os iranianos pronunciam "côleo"), tão famoso quanto Ronaldinho num país que é fanático por futebol, é notícia dia sim, dia não na imprensa local. Repercutiu ontem aqui o que ele teria falado à imprensa russa, de que se arrependeu de vender os direitos de seu livro "O Alquimista" ao estúdio americano Warner Brothers.

"CÔLEO" 2
"O Alquimista" está à venda por centavos de dólar nos quiosques em frente ao Bazar, no centro de Teerã, em versões piratas. Instada a opinar, uma leitora diz que acha o estilo do brasileiro igual ao das fábulas árabes, mas "mais simples".

"MOUSE RUG"
Nos internet cafés, a onda são os "mouse pads" feitos de mínimos tapetes persas.


Escrito por Sérgio Dávila às 18h40
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Do Irã - A torre inacabada

Quando o iraniano fala em "mercado", não se refere a Wall Street, investidores estrangeiros ou multinacionais. Como o governo detém entre 70% e 80% da economia (os índices em geral não são precisos, porque os números são censurados), e 90% do valor das exportações vem da venda de petróleo bruto, não há mercado no sentido ocidental. Mas há o mercado, literalmente.

É o Bazar, no centro velho de Teerã, labirinto de ruelas e corredores que vendem de tudo _"bazar", que o português depois adotou, é palavra persa para "mercado". Dominado pelos mesmos clãs, entra governo, sai governo, muda regime, troca a moeda, os "bazari", ou mercadores, estão lá. Têm sua própria mesquita, seu próprio partido e são a fatia não-religiosa mais influente da sociedade.

É aqui, ao Bazar, que a mãe vem comprar o "jahaz", o enxoval, quando o noivo vai pedir a mão da filha e oferecer o "mehrigeh", o dote. É ao Bazar que, em dificuldades financeiras, o pai vem vender o tapete da família, que os persas usam como investimento, dinheiro embaixo do colchão, que valoriza com o tempo.

Pois o Bazar está nervoso.

"No último ano, eu vendi metade do que consegui nos dois anos anteriores", contabiliza Nasser Hazim, 12 anos no ramo, dono da auto-explicativa Casa dos Tapetes Persas e uma das personalidades do Rasteh Farsh Forosha ("corredor dos vendedores de tapete"). Fica na parte mais nobre do Bazar, os fundos, onde seus colegas de profissão se reúnem _Hazim já atendeu de Rodrigo de Rato, do FMI, a Christiane Amanpour, da CNN, e vai lhe mostrar os respectivos cartões de visita como prova.

"Com essa conversa toda de programa nuclear, o presidente Ahmadinejad está afugentando os turistas", acredita ele. "Outros países da região com muito menos atrativos e tradição do que o Irã, como a Turquia, estão atraindo mais gente por conta disso. O Khatami (presidente anterior, que começou a promover reformas) sabia bem disso."

Termina com a frase que todo político treme ao ouvir, ecoada com o balançar de cabeça por Nasser, seu sócio: "Isso não é bom para o mercado".

Pois, de novo, o linha-dura Mahmoud Ahmadinejad parece estar atento ao zunzunzum das ruas. Segundo um estrangeiro em contato diário com autoridades iranianas, que pede para não ser identificado por razões diplomáticas, o país já tem equipes nos principais setores da economia com planos de emergência prontos caso vinguem as sanções com que ameaçam os Estados Unidos, a União Européia e o Conselho de Segurança da ONU, nessa ordem.

"Os iranianos já estão liquidando parte de seus ativos na Europa e comprando tudo em ouro, por precaução", diz o funcionário _seja qual for a sanção, se vier, deve envolver pelo menos dois pontos: a proibição de viagens de autoridades iranianas ao exterior e o congelamento de depósitos do país na comunidade financeira internacional.

A possibilidade cada vez menos remota assusta o iraniano, mas a economia do país é robusta. Como segundo maior produtor de petróleo do mundo, o Irã viu seu PIB crescer 5,5% no último ano local (de março a março), batendo nos US$ 600 bilhões. Mas a inflação, apesar de ter caído, não baixa dos 12%. O país ainda importa 20 milhões de litros de gasolina por dia. O desemprego é de entre 15% e 20% dos 24 milhões de trabalhadores, e essa massa não está feliz, como mostrou manifestação recente que pedia a cabeça do ministro do Trabalho.

Ahmadinejad tenta agradar os "bazari" _criou a primeira bolsa de valores eletrônica, promete lançar ainda neste ano a bolsa de valores de petroeuros (em vez de petrodólares), disse que transações bancárias por Internet são aprovadas pelo Islã_ e os trabalhadores _aumentou o salário mínimo para US$ 180. O problema, dizem empresários, é a sharía, a implacável lei islâmica.

Ao assumir o governo, no ano passado, Ahmadinejad afirmou que quem fosse pego "roubando uma moeda que seja" seria julgado segundo a sharía, que prevê de chibatadas a amputação de uma ou as duas mãos. "Isso paralisou as transações da iniciativa privada com o governo, historicamente corruptas", disse um empresário do setor de serviços que pede para não ser identificado por medo de represália. "Sob Khatami, havia concorrências de estradas, de construção de rodovias. Agora está tudo parado."

Um dos símbolos da economia que ameaça parar é a Torre Milad, de telecomunicações, que terá 435 metros, será a quarta mais alta do mundo e já pode ser vista de boa parte do norte de Teerã. Deveria ter ficado pronta em 2005. Desde então, o painel eletrônico colocado na inauguração é reajustado para avisar os dias que faltam para a conclusão. Atualmente, o número é 490.



Escrito por Sérgio Dávila às 18h39
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Faézé, do Irã



Escrito por Sérgio Dávila às 05h22
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Diário do Irã - segunda-feira

PIRATARIA SIM 1

Nos Internet Cafés, vários computadores ligados trazem o aviso: "Essa versão do Windows é pirata; clique aqui para resolver este problema". Obviamente, ninguém clica, jamais.

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PIRATARIA SIM 2

Pelo mesmo motivo, vários sites ocidentais, como o www.yousendit.com, bloqueiam a entrada de computadores cujo endereço seja do Irã.

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PIRATARIA SIM 3

Pelo mesmo motivo, quiosques nas ruas vendem CDs com a mais recente versão do software Office, da Microsoft, por US$ 1 _dezenas e dezenas de vezes mais barato que o original.

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LIBERDADE NÃO 1

Por outros motivos, vários sites são bloqueados pelo governo iraniano. Uma busca recente no Google que envolvia as palavras "women" e "men" (no caso, o título de um livro de auto-ajuda à venda _em versão pirata_ nas livrarias locais) deu o aviso, em farsi: "Pare! Você está tentando entrar em um site cujo conteúdo fere as leis islâmicas".

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LIBERDADE NÃO 2

E o site de relacionamentos Orkut, que já teve nos iranianos a terceira nacionalidade de navegadores, também está proibida. Muitos jovens usavam a rede para venda de drogas e prostituição, disse o governo. Na verdade, o que proliferavam eram as comunidades reformistas, disseram alguns jovens.

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LÁ VEM O BRASIL 1

"Governador de São Paulo diz que violência é um aviso aos ricos", era a manchete de ontem da seção de notícias internacionais do jornal "Tehran Times", um dos três diários de língua inglesa publicados no país.

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LÁ VEM O BRASIL 2

"Policiais brasileiros matam 33 suspeitos de serem membros de gangue", estampava outro, o "Iran News".

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LÁ VEM O BRASIL 3

E o Le Café, uma das "coffee shops" que são moda na cidade, tem no suco Vitamine C Beresilen seu hit de vendas. É um caldo intragável feito a partir de um pó amarelo com quilos de açúcar.

 



Escrito por Sérgio Dávila às 05h18
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Do Irã - segunda-feira 2

Na república dos aiatolás, mais perigoso do que morar sozinha é aparecer em público ou em fotografias sem o "rousari" e o mantô. Faézé Mohamadi, 30, faz os dois. Pelo primeiro, já foi chamada de prostituta. Pelo segundo, corre o risco de ser presa. "Eu não ligo, pode publicar", diz ela à reportagem da Folha, quando indagada se não tem medo de aparecer em trajes ocidentais.

Quando a Revolução Islâmica derrubou o xá, ela tinha 3 anos. Aos sete, com o regime cada vez mais duro, foi obrigada a passar a seguir a "hijab". "Lembro até hoje quando tive de ir à escola pela primeira vez com o lenço na cabeça e o mantô cobrindo o corpo", conta. "Foi a maior agressão que eu sofri." Desde então, sempre que pode, descumpre a lei com a qual não concorda.

Não é a única regra que Faézé não segue. Com sua idade, já tinha de estar casada _se não, morando na casa dos pais. Solteira, vive sozinha num prédio de cinco andares no centro de Teerã, cidade onde nasceu. Pior: recebe em casa amigos homens que não são seus parentes de sangue e sem a presença de outra mulher, como exige o Islã. E cumprimenta-os dando a mão direita, deferência reservada apenas ao marido.

Quando um vizinho a flagrou fazendo isso, no corredor do andar em que mora, ameaçou chamar a polícia. Desconfiou que poderia ser uma garota de programa, crime que lhe custaria a vida e desgraçaria sua família. Pois foram estes que o salvaram. Faézé pediu que seus pais e quatro irmãos passassem a visitá-la.

Ostensivamente, dia sim, dia não. "Sempre que um deles vinha aqui, eu chamava um vizinho para conhecê-lo. Aos poucos, viram que eu tinha apoio familiar e foram se acostumando. Hoje, quase não ouço desaforos no prédio." Na rua é outra história. Não que ela ouse sair sem as vestimentas. "Nunca vi uma mulher de cabeça descoberta em Teerã", fala, achando graça da pergunta. "Vi uma, mas era louca."

É que, quando os colegas sabem que ela é solteira e mora sozinha, acham que não há problema em tomar certas liberdades _como dar a mão em público. Foi assim na ONG em que a socióloga dá aula de farsi (persa) para meninas francesas. "Um deles veio me perguntar o que havia de errado comigo", dá risada.

Faézé acha que a religião é pretexto para uma sociedade machista que oprimiria a mulher de qualquer jeito. "É mais um problema de tradição do que de crença." Não vê mudança à vista, "pelo menos não nos próximos dez anos", diz, pelo menos não com esse regime e esse presidente. A amiga, presente durante a conversa mas que pede para não ser identificada, lembra-se de algo que aconteceu com ela.

Num prédio de um ministério, ao qual ela foi acompanhar um ocidental em visita ao país, despediu-se distraidamente do funcionário com o qual os dois falavam dando a mão. A iniciativa foi do homem, não dela. Era um teste: o burocrata queria saber se a mulher estava atenta à lei mesmo na presença de um estrangeiro.

Faézé veste o "rousari", o mantô e se despede do repórter aconselhando-o a sair logo do prédio. "Nós não somos iguais", diz, antes de fechar a porta.



Escrito por Sérgio Dávila às 05h17
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Do Irã - segunda-feira 1

Shadi Jahani, 27 anos, não pode mostrar em público nada além das mãos e do rosto. Não pode sair com a cabeça descoberta. Não pode andar de mãos dadas com o namorado, a quem ela espera na manhã de hoje na bilheteria para assistir a "Um Pedaço de Pão", atual sucesso do cinema iraniano. Não pode cantar. Não pode usar absorvente interno, a não ser que compre no mercado negro. Não pode ter seu testemunho levado em conta por um tribunal, se for contra um homem _para tanto, precisará de outra mulher, pois ambas terão metade do peso jurídico do homem.

É longa a lista do que Shadi e 35 milhões de mulheres como ela não podem fazer no Irã, cujas leis e normas de conduta são ditadas por uma interpretação fundamentalista do islamismo. Mas a mais visível é a que regula as roupas. O Corão, o livro sagrado, diz apenas que muçulmanos, homens e mulheres, devem "se vestir modestamente _é o que se chama "hijab". Ao longo dos séculos, no entanto, a regra vem sendo reescrita, e sua versão mais dura serve aos propósitos da Revolução Islâmica, de 1979.

Por ser a mais visível, a "hijab" é também uma das mais representativas das mudanças pelas quais a sociedade local passa, especialmente a classe média do norte de Teerã, mesmo com a guinada conservadora que o país deu após a eleição de Mohamed Ahmadinejad, no ano passado. Todas as mulheres andam cobertas, mas é no pouco que dá para variar que elas protestam, lutam e inovam: a cobertura.

"Você vê o que uma mulher usa na cabeça e sobre as roupas e sabe qual a sua idade, posição política, classe social e grau de apoio ao governo", resume Zohreh M., 42, ao lado de duas das três filhas, todas de chador, o lençol escuro seguro por uma das mãos ou uma fita adesiva estrategicamente colocada, que cobre da cabeça aos pés das mulheres e é a versão mais radical das coberturas.

Quem não usa o chador veste o "rousari", que por lei deve cobrir a cabeça e deixar apenas o rosto à mostra, e o mantô, que também por lei deve ir abaixo do cotovelo e sobre mangas compridas e abaixo do joelho e sobre calças compridas. Aí começam as variações. As mais modernas usam a versão possível da minissaia, que é o "rousari" solto no pescoço e cobrindo apenas meia cabeça, com o mantô mal chegando ao joelho e ao cotovelo. As mais ousadas fogem da variação de preto tradicional. Há mantôs verdes e até rosa-choque.

As adolescentes usam o "maghnae", um "rousari" em forma de capuz, mais prático para tirar e colocar, com óculos escuros Gucci ou Giorgio Armani. As mais endinheiradas usam as versões mais caras da griffe TT, a mais consumida, ou as da loja Miniator, que podem custar US$ 80 o exemplar. Já as "vítimas da moda" descobriram a beleza dos modelos estampados com rosas, típicos do Turcomenistão.

"Até o ano passado, só gente do campo usava estampa no ‘rousari’", diz Maria Moghdan, 24. "O chique eram os pretos." Houve até um ano de onda retrô, em que os modelos usados pelas ultrarreligiosas, que cobre a testa e o queixo, ganhou a simpatia das estudantes universitárias. Hoje, começam a tomar as ruas do norte de Teerã os padrões de estampa da Burberry’s, de Londres, que passam dos US$ 200.

Mulher no futebol

O sobe-e-desce dos mantôs e o carnaval de cores dos "rousari" nas ruas não passou desapercebido pelo presidente, conservador mas preocupado em agradar uma fatia da população, a classe média, que não o apóia. Também acendeu a luz amarela do atual Parlamento, de maioria conservadora, com efeito inverso.

Em meio a uma série de medidas que reforçam o recuo do governo aos valores da Revolução, que vinha sendo atenuada pelas reformas do presidente anterior, Mahmoud Ahmadinejad surpreendeu os iranianos ao derrubar, no dia 24 último, proibição de 1979 que impedia as mulheres de assistirem a homens praticando esportes em grandes estádios.

As manifestações de torcedoras de futebol nas portas do Estádio Azari, em Teerã, estavam se tornando cada vez maiores e violentas; a última levou às bilheterias 250 mulheres, que brigaram com a polícia. É certo que o presidente é fanático pelo esporte, mas na ocasião Ahmadinejad apoiou publicamente também a participação cada vez maior das mulheres em cargos do governo e disse que sua presença nos estádios "reforça a castidade e a família".

Na contramão, o Majlis, o Parlamento iraniano, passou proposta de lei que desaconselha mulheres a usar "roupas ocidentais", prevê aumento da taxa de importação sobre esses artigos e cria um fundo de campanha para encorajar os iranianos a se trajar de acordo "com os valores do Islamismo".

A medida deve ser derrubada, pois atrita com posição recentemente defendida por Ahmadinejad, segundo quem o código de vestimenta do Islã "deve ser respeitado mas não forçado". Na esteira da declaração do presidente, a polícia de costumes iraniana anunciou que adotaria um enfoque menos duro no verão do país, estação em que aumenta o número de prisões de mulheres por indecência (geralmente, ausência de "rousari" e mantô).

Na mesma direção estão as prefeituras de Karaj, na periferia da capital, que anunciou anteontem a criação do primeiro grupo de mulheres do Corpo de Bombeiros iraniano, e de Teerã, que aprovou o primeiro serviço de lotação com motoristas mulheres.

Nada disso muda a opinião de Zohreh M., que veste chador. Para ela, "os valores da cultura iraniana estão sendo derrubados pela TV por satélite", proibida por lei mas que enfeita a maioria dos telhados de Teerã.



Escrito por Sérgio Dávila às 05h11
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Al Pacino no Irã



Escrito por Sérgio Dávila às 19h51
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Diário do Irã - Domingo

SEM "BRAZÍLI"

Não, não há "Brazíli" nas ruas de Teerã, como os Passat brasileiros exportados para o Iraque pela Volkswagen nos anos 80 ficaram conhecidos em Bagdá. A montadora chegou a ensaiar um acordo parecido com o governo iraniano, que não vingou. Andando pelas rodovias, porém, dá para ver alguns fuscas. E muitos Pride, carro popular da Kia (velhos), e 206, da Peugeot (novos).

 

COM POLUIÇÃO

Teerã, segundo alguns estudos a segunda cidade mais poluída do mundo, atrás apenas da cidade do México, deixa o visitante com uma sensação de ter fumado um maço de "estoura-peito" no final do dia. Em dias úteis, a nuvem cinza quase não deixa ver as montanhas que tomam o norte.

 

COM GASOLINA

Já o litro da gasolina é ridiculamente baixo, 10 centavos de dólar, ou 80 "Toumans". Apesar de a moeda oficial ser o Rial, ninguém usa o termo, culpa da desvalorização cambial. Um Touman vale 10 Rials.

 

TALCO CARO

Os comerciantes locais descobriram um jeito de dar sobrevida às notas de Rial, afinal as que estão em circulação, mas grandes, velhas e de pouco valor. Dão um banho de talco nelas quando fazem retiradas no banco. O cheiro é enjoativo e indica onde está guardado o dinheiro da pessoa, o que nem sempre é uma boa idéia.

 

FRANCÊS "IN"

Muitas palavras francesas fazem parte do dia-a-dia do iraniano, como "Merci" (obrigado), "chantage" (chantagem), "manteaux" (mantôs, as coberturas que as iranianas são obrigadas a usar sobre o corpo). Os jovens usam palavras inglesas, como "cool", "brother" (muito parecido com o farsi "barãdar", que quer dizer a mesma coisa _irmão). É mais "intelectual" usar francês, sendo o inglês mais "popular".

 

GARFO E COLHER

Não se usa faca na mesa do iraniano. Seja em casa ou nos restaurantes, come-se de colher e parte-se o alimento com o garfo. A faca é usada apenas em hotéis voltados para os ocidentais ou em casas em que os anfitriões queiram impressionar o convidado estrangeiro.



Escrito por Sérgio Dávila às 19h36
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Do Irã - domingo 3

Na quinta-feira, o jornal iraniano "Jomhuri Ye Eslami" trouxe reportagem segundo a qual o presidente Mahmoud Ahmadinejad pretende continuar sua série de cartas a líderes mundiais com uma correspondência a ser enviada ao Papa Bento 16, cujo teor é desconhecido. A notícia não foi confirmada pelos líderes locais, mas ganha certa credibilidade por ter sido veiculada onde foi e pelo fato de não haver imprensa livre no Irã.

O "Eslami" é de propriedade da Casa do Líder Supremo, o aiatolá; as dezenas de diários iranianos pertencem a um partido, instância ou cargo político. E nada é publicado no país sem que tenha sido lido antes por um censor. Se for confirmada, a segunda carta de Ahmadinejad indica uma estratégia e revela um bastidor.

O bastidor é que o aiatolá Khamenei estaria fortalecendo tanto o cargo quanto a figura do presidente. O envio de cartas a líderes remete ao profeta Maomé, o fundador do islamismo, que viveu nos séculos 6 e 7, mas até agora, pelo menos no Irã, era prerrogativa do líder religioso. Khomeini já mandou uma carta a um papa, assim como a um presidente, no caso o então líder soviético Mikhail Gorbachov, em 1989, em que o convidava a estudar o Islã.

A carta de 18 páginas que Ahmadinejad mandou a Bush no começo de maio pode ser apenas mais um rompante de um presidente dado a eles, mas provavelmente faz parte de uma estratégia conjunta dos dois líderes, o do governo e o religioso (a quem o presidente é subordinado), de comprar crédito na opinião pública mundial caso o programa nuclear iraniano chegue a um impasse e de transferir a responsabilidade desse impasse para o "Ocidente", representado por Bush, o papa e quem mais vier.

É o que defende o egípcio Mustafa El-Labbad, especialista em assuntos iranianos, para quem com isso Ahmadinejad ganha também o público interno. Com ele concorda o guia turístico Peyman Moghdan, 24. "Os iranianos podem não ter entendido completamente a atitude do presidente, mas respeitaram e apreciaram sua iniciativa de ousar enfrentar Bush", disse ele à Folha.

Os bastidores de como a carta foi escrita e chegou até o presidente norte-americano reforçam a tese de um ato planejado, não-impulsivo. O texto nasceu de uma versão confidencial que Teerã tentou que fosse entregue à Casa Branca pelas mãos de Mohamed Reza Nahavandian, auxiliar de Ali Larijani, que é o negociador da questão nuclear iraniana.

O assessor não foi recebido em Washington e teve instruções de entregar então o documento à revista "Time", que o publicou em seu site. A partir daí, Ahmadinejad decidiu refazer sua correspondência e fazer dela uma carta aberta ao presidente norte-americano. Logo foi colocado em marcha o processo, que culminou com Bush recebendo a papelada a bordo do Air Force One, o avião presidencial dos EUA.

Apesar de o americano ter desqualificado a carta por não ter propostas concretas, crítica que foi reforçada pela secretária de Estado, Condoleezza Rice, a impressão de boa parte dos iranianos é a de que a batata quente agora está do lado "deles".



Escrito por Sérgio Dávila às 19h35
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Do Irã - domingo 2

Sony. Bill Clinton. Coca-Cola. Brad Pitt. Geladeira de aço escovado e porta dupla.

Para o ocidental com pouco tempo mas grande vontade de entender o momento pelo qual o país atravessa, subir a pé a rua Shariati, no sentido sul-norte de Teerã, em direção aos picos nevados de Alborz, pode ser revelador. Aos poucos, a velha parte da cidade, com seus bazares milenares e casas de chá centenárias, vai ficando para trás e dando lugar a construções mais novas.

Numa das primeiras, está a livraria Darinoush. Dentro, os suspeitos de sempre. A vendedora explica que "O Zahir", de Paulo Coelho (os iranianos comem o "e" do nome do escritor brasileiro ao falar), é o livro mais vendido atualmente, a US$ 0,10 o exemplar. Tem mais de vinte versões, apenas uma delas rendendo direitos autorais ao autor, uma vez que o Irã não respeita a Convenção de Berna.

Outro sucesso são os livros de Oriana Fallaci, italiana que vestiu o chador para ser a primeira mulher a entrevistar o aiatolá Khomeini (1900-1989), referência no jornalismo mundial até abraçar a causa do anti-semitismo, na velhice. E os CDs de Yusuf Islam, um dia conhecido como Cat Stevens, hoje seguidor do islamismo. Ou o "Rubayat", de Omar Khayyam (1048-1131), o maior poema da língua persa.

Tudo já sabido, mas o que intriga é o companheiro de estante dessa turma.

Cabelos nevados, sorriso inconfundível... É Bill Clinton, que ocupava o lugar de George W. Bush na Casa Branca até 2000, o mesmo Bush que é unanimidade local de impopularidade e destino de impropérios os mais variados, do mesmo país que é chamado por nomes que são variações de "grande mal". Pois a Darinoush vende "Minha Vida", biografia do ex-presidente americano.

Vende também "What Women Want Men to Know", livro ocidental de auto-ajuda feminino com Sharon Stone na capa e conselhos picantes que serão lidos supostamente pelas mesmas iranianas que só podem sair de casa com a cabeça, pernas e braços totalmente cobertos, têm a metade do valor jurídico de um homem e aceitam mais ou menos sem protesto sua submissão.

Mais adiante, outra concentração de gente. É o cinema local, que exibe três filmes iranianos mas também "O Mercador de Veneza", versão de 2004 com Al Pacino, no cartaz pintado à mão, como as antigas salas do centro de São Paulo. Ao lado, o 21 Century Shopping, em inglês mesmo, oferece os últimos títulos de DVD. "Spy Games" em que Robert Redford e Brad Pitt interpretam agentes da CIA, é um deles. "Meet the Fockers", comédia com Robert DeNiro e Barbra Streisend, aliás praticante importante do judaísmo, é outro.

"Ainda não recebemos ‘O Código da Vinci’, mas é questão de semanas até a censura ter a cópia, liberar com cortes e exibirmos aqui, para depois vendermos o DVD", explica à Folha o gerente, Parham Zonobi, observado pelo cartaz do filme "O Assassinato de Richard Nixon", com Sean Penn no papel real do primeiro terrorista (americano) a tentar jogar um avião na Casa Branca.

Uma olhada pelas vitrines revela o último lançamento em tela de cristal líquido da Sony, a Bravia, e uma geladeira com porta dupla de aço escovado da Daewoo. Se a classe média iraniana pretende ir ao paraíso do consumismo, a primeira parada será aqui, nesse bairro conhecido como Gholak ("pequeno pico", em tradução livre).

A rua leva o nome de Ali Shariati (1933-1977), sociólogo iraniano que é um dos nomes pré-revolucionários mais reverenciados pelo atual regime, um utópico islâmico elogiado por Jean-Paul Sartre que foi perseguido e preso pelo xá. Seu nome aparece em frente a um outdoor móvel que anuncia as novas coleções das grifes Hugo Boss, Ermenegildo Zegna e Dolce & Gabbana.

Mesmo contraste se dá numa das principais redes de fast-food da cidade, a Farsi Foods, com loja por aqui. Famílias fazem fila para levar os espetinhos de frango e o arroz feito à maneira iraniana _muitos trazem suas próprias panelas, que serão cheias pelos atendentes. Enquanto esperam, vêem por uma TV de tela plana o trabalho feito na cozinha.

Atrás dos caixas, há um tapete bordado com uma passagem do Corão, o que é comum nos estabelecimentos públicos iranianos. Abaixo do quadro, uma foto do aiatolá Khomeini, fora de foco, e do atual líder religioso, o aiatolá Khamenei, em primeiro plano. À esquerda deles, as portas de uma geladeira com o fundo vermelho e o logo branco inconfundíveis da Coca-Cola não param fechadas.



Escrito por Sérgio Dávila às 19h31
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Do Irã - domingo 1

Bush tem um estranho tom de quem tem sede de sangue.
Uma faixa com estes dizeres recebe o visitante do campus principal da Universidade de Teerã na sexta-feira. Com as cores verde, vermelho e branco, da bandeira da República Islâmica do Irã, está escrita em farsi, a língua oficial, e inglês. Saúda não qualquer visitante, mas os cerca de 150 mil fieis que se reúnem dentro -e nas dezenas de quarteirões ao redor- da feia construção que domina o centro da capital iraniana, constantemente coberto por uma nuvem cinza de poluição.
No dia sagrado de descanso do muçulmano, a reza mais importante é a do meio-dia, seguida de um comentário feito pelo mais alto líder religioso à disposição, geralmente um aiatolá, do primeiro país islâmico de peso a adotar o fundamentalismo como política de Estado, em 1979. O fiel que vai à universidade quer conforto espiritual, mas também guia política, moral e de conduta.
Hoje, depois de lidos trechos do Corão, quem toma a frente é o aiatolá Mohammad Emami Kashani. Espécie de porta-voz do Conselho dos Guardiães, que vigiam a Revolução Islâmica e a Constituição e aprovam ou rejeitam as leis do Majlis (parlamento), ele fala em nome do poder, e todos sabem disso.
"Nossos inimigos, que são os Estados Unidos e Israel, e é claro que os israelenses dão lições aos americanos, querem atingir as fronteiras, a economia, as universidades e a ciência do Irã", começa. "Tudo é planejado na CIA, essa organização em desgraça, esses idiotas que não nos entenderam direito", continua, para chegar ao que interessa: o programa nuclear iraniano. "Todos os nossos trabalhos estão sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica, e não consideramos prudente usar armas nucleares". E termina: "Mas protegemos nossas conquistas tecnológicas e não voltaremos atrás por nem um momento".
Ele sai de trás do microfone sob o silêncio dos presentes, que se curvam até encostar a testa no "mohr", tijolinho feito de barro sagrado de Jerusalém, colocado no chão coberto. Kashani passa por baixo de outra faixa, essa escrita só em farsi: "O Irã seguirá com seu programa nuclear para fins pacíficos. Nós não queremos cruzar a "linha vermelha", mas, se formos pressionados, cruzaremos".
Engana-se quem pensa que o Irã blefa quando ameaça ir à luta caso veja negado o que chama de seu direito de produzir energia nuclear. Mas se engana também quem pensa que a cena descrita acima é representativa do país como um todo. Os milhares de fiéis respondem por 2% dos moradores da cidade, e a falação é transmitida em cadeia nacional.
Outro tanto de pessoas está naquele momento em shoppings centers e ruas comerciais comprando produtos de grifes norte-americanas ou no cinema (leia texto na página ao lado). É cada vez maior a dificuldade dos aiatolás de manter unida em torno de preceitos religiosos ultra-rígidos uma população formada por 60% de menores de 24 anos, jovens que têm cada vez mais acesso (ainda restrito) ao mundo ocidental via produtos culturais pirateados (censuradas), TV por satélite (ilegais) e Internet (com filtros e vigiada).
Uma população que vê crescer em quantidade e poder a classe média, com interpretações menos restritas do islamismo e desejos consumistas, ao mesmo tempo em que a classe mais popular sofre com os efeitos de uma economia que ameaça se estagnar.
O Irã, sob a presidência do ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad, eleito em junho de 2005 para um mandato de quatro anos, e a liderança espiritual do aiatolá Ali Khamenei, é um país cada vez mais dividido.

Espelho
A própria Universidade de Teerã, fundada em 1934 e importante centro de difusão de idéias, é um símbolo da divisão. A oração coletiva de sexta-feira teve lugar numa antiga quadra de futebol de salão tomada pela Revolução, hoje local sagrado. Poucos estudantes costumam ir às preces. Eles freqüentam outro lugar, metros acima, em outros dias da semana. É a mesquita universitária, onde se reúnem as lideranças da esquerda reformista.
Dividido, sim, mas que pode se unir na questão nuclear. A defesa de sexta-feira do aiatolá encontra eco em Reza Mashayik, 52, pequeno empresário, com três filhas, para quem "a culpa é do Ocidente". "Ter energia nuclear é nosso direito", diz ele à Folha. "Negar esse direito vai acabar com a economia do país, pois os cálculos dão conta de que a eletricidade vai começar a faltar em alguns anos. Mas sabotar o Irã é o que o Ocidente faz melhor."
Opinião semelhante terão outras tantas pessoas ouvidas pela reportagem. Uma delas, que pede para não ser identificada, lembra que o Irã não declara guerra a um país há 250 anos -a do Irã-Iraque (1980-1988) foi em reação ao ex-ditador Saddam Hussein-, mas nunca deixou de se unir nas que apareceram.
É nesse espírito de adesão a um tema mais ou menos consensual que aposta Ahmadinejad, atualmente em peregrinação pelo país. O hábito das viagens internas é comum a líderes políticos ocidentais mas estranho aos ocupantes do cargo no Irã. Desde que assumiu, há menos de um ano, o presidente já realizou treze. Visitou cidades que não viam um líder de Teerã desde antes do governo do xá Reza Pahlevi (1953-1979), derrubado pela revolução.
De volta à Universidade de Teerã, os fiéis se preparam para deixar o local. Passa das 13h. Todos ajudam a recolher os "sadjadih" (tapetes) usados no "sedjdeh" (ato de orar). Calçam os sapatos que descansavam em sacos pretos. Recebem balinhas dos centenas de seguranças que vigiam o local. Recolhem celulares, câmeras e mochilas que tiveram de deixar na entrada, após três revistas, uma com detetor de metal.
Um senhor aborda o repórter, sem saber que se trata de um não-iraniano. Diz algumas frases em farsi, que mistura com as palavras "WC", "Bush" e "Thankyouverymuch", sem intervalo. O intérprete ri e responde algo. Depois revela que o homem queria ir ao banheiro. Mas perguntou: "O senhor saberia me indicar onde fica o escritório do presidente George W. Bush?"

 



Escrito por Sérgio Dávila às 19h30
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Coluna América de hoje


21/05/2006

 
De chips, muros e estrelas

por Sérgio Dávila

Os imigrantes ilegais, não-documentados, os alienígenas, enfim, chame como quiser a força de trabalho (e fonte de problemas) de 12 milhões de pessoas, que são a ponta do iceberg dos 45 milhões de hispânicos que compõem os EUA hoje, ou um sexto da população do país, estão sofrendo as conseqüências de sua tentativa de organização e das manifestações públicas que fizeram.

Não só pelo Plano Bush, anunciado na segunda-feira, que traz para o campo doméstico o pior da política externa de Theodore Roosevelt, a qual resumia com um provérbio: "Fale macio, mas leve um porrete". No caso do ocupante atual da Casa Branca, a fala macia é a regulamentação dos imigrantes que se qualificarem; o porrete, a Guarda Nacional na fronteira. O pior é que, por algumas reações dos últimos dias do lado mais conservador dos conservadores do país, Bush até que pegou leve.

Há o lado folclórico, como o "ringtone" que a Cingular oferecia aos usuários de seus celulares ("I repeat-o, put the oranges down and step away from the telephone-o, I'm deporting you back home-o", "eu repito, abaixe as laranjas, fique longe do telefone, eu estou deportando-o para casa hoje", cantava com sotaque exagerado o americano de origem mexicana Paul Saucido na musiquinha para os aparelhos) e teve de cancelar por conta dos protestos.

Há o lado mais barra-pesada, como o game "Border Patrol", distribuído por sites racistas, em que uma das tarefas do jogador, que vira um guarda da fronteira, é matar uma mulher grávida de traços latinos que tenta atravessar com seus dois filhos um deserto num cenário que lembra a divisa México-EUA. No final, "game over", aparece a pergunta na tela: "E então, Paco, conseguiu o 'green card'?"

Ou a brilhante idéia de persuasão das diversas organizações de Minutemen, as milícias formadas nos últimos anos por civis que resolveram "tomar o problema com as próprias mãos" ao organizar bandos de amigos armados (direito protegido pela Constituição norte-americana) para vigiar a fronteira. Agora, a turma manda por Fedex tijolos intimidatórios a cada um dos congressistas que defendem leis mais brandas para a imigração. A alusão nada sutil é ao muro, que os milicianos sonham ver construído.

Mas nada superou um comentário de um senador republicano, primeiro pela posição do político, segundo pela aparente seriedade de suas intenções. Em uma sessão no Congresso, em que relatava como foi seu périplo recente pela América Latina (a viagem, com parada em hotel turístico em Manaus, foi contada em detalhes aqui na Folha), Arlen Specter defendeu a implantação de microchips sob a pele dos trabalhadores que vierem aos EUA no programa "trabalhador convidado".

A idéia, disse o político, lhe foi dada pelo presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, como maneira de garantir que, terminado o trabalho, o miguelito (ou Pablo) pegue suas trouxas e caia fora do país. Se, por acaso, quiser continuar colhendo laranja ou limpando panelas clandestinamente, pode ser localizado pela polícia via GPS, ou posicionamento global por satélite, e mandado de volta.

Specter não é um qualquer. O republicano pelo Estado da Pensilvânia é uma das estrelas de seu partido, presidente da Comissão Judicial do Senado (que no momento discute as diversas propostas de lei de imigração) e foi considerado um dos dez melhores em atuação por edição recente da "Time".

Implante de chips. Qual o próximo passo? Estrelas costuradas na roupa?


@ - sdavila@folhasp.com.br


Escrito por Sérgio Dávila às 19h28
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Próxima atualização...

 

... só no domingo, com surpresas. Até lá.

 



Escrito por Sérgio Dávila às 05h58
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Código da Vinci por toda parte

 

* as primeiras críticas são negativas. Todd McCarthy, da Variety, não gostou e puxou o coro, que vai do "Times", de Londres, ao Le Monde francês

* Lynn Picknett e Clive Prince, autores do livro "The Templar Reveletion", do qual Dan Brown disse ter tirado "tudo de que precisava para a Grande Idéia", fazem ponta como passageiros num ônibus que passa por trãs de Tom Hanks --já é alguma coisa

 



Escrito por Sérgio Dávila às 05h58
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Está nas bancas o Independent do Bono

 

Está nas bancas de Londres o "Independent" do Bono, a edição especial do diário britânico todo editado pelo líder do U2 e ativista político. As propagandas de ONG ou de entidades beneficentes dominam, assim como a cor vermelha, da campanha da ONG de Bono pelo fim da Aids na África. A reportagem principal é uma entrevista dele com o primeiro-ministro britâncio, Tony Blair, e seu chanceler, em que o músico cita o etanol e o desenvolvimento de biocombustíveis brasileiros como bons exemplos a serem seguidos pelo Reino Unido na busca por tecnologias pró-ecológicas e pró-emergentes. A manchete, em capa desenhada por Damien Hirst, é "Não há notícia hoje" (só 6.500 africanos que morreram hoje em conseqüência de uma doença prevenível e tratável --HIV/Aids).

No alto de tudo, uma citação ao versículo 27 do primeiro capítulo de Gênesis: "E Deus criou o homem à Sua imagem e semelhaça". De colecionador.

 



Escrito por Sérgio Dávila às 19h55
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