EUA, Washington, homem, de 36 a 45 anos, português, inglês, espanhol e francês

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Hillary é GE, Obama é Google

Avisei há algumas semanas que, até o final de 2008, seria Hillary, Obama, Giuliani, McCain e os outros, o tempo todo. Pois volto ao tema. Antes, porém, vale registrar que vergonhosamente nenhum dos principais candidatos a candidatos à sucessão presidencial norte-americana se posicionou de maneira efetiva em relação ao controle de vendas e porte de armas, mesmo após o Massacre da Virgínia.

É uma regra não-escrita que domina a política desse país há gerações: não se elege um presidente que defenda a extinção do direito ao porte de armas, previsto na Segunda Emenda da Constituição, nem o que pregue o fim da pena de morte. Mesmo o liberal Bill Clinton, afastado de seu cargo de governador do Arkansas para a corrida de 1992, interrompeu a campanha em janeiro daquele ano só para voltar ao gabinete e assinar a execução de um condenado -e ganhar os votos relutantes do Sul conservador.

(Ricky Ray Rector, o executado, era negro e doente mental; ao ser levado pelos guardas para o local de execução, pediu a um deles que guardasse sua sobremesa, pois achava que voltaria logo.)

Outra regra não-escrita diz que nenhuma mulher ou negro serão presidentes dos EUA, mas as últimas pesquisas de opinião parecem balançar pelo menos esse traço da imutabilidade da política norte-americana, o que pode ser um bom sinal e um bom começo. Segundo o último Gallup, a senadora Hillary Clinton continua à frente (36% das intenções de voto) entre a oposição democrata, mas caiu sua diferença em relação a seu colega Barack Obama (31%), de 12 pontos percentuais para 5.

Assim, chego aonde queria desde o começo: Hillary é GE, Obama é Google.

A idéia é do colunista da revista eletrônica "Slate", Daniel Gross, que procura sempre maneiras originais de tornar mais "sexy" um assunto geralmente espinhoso: economia, sua especialidade. Ele resolveu tratar os eleitores como investidores de ações, e os candidatos, como empresas. Chega mesmo a fazer as recomendações típicas para leitores-acionistas, como "compre, venda, mantenha".

Suas comparações e apostas:

Hillary Clinton: General Electric. Como a GE, a ex-primeira-dama é uma ação "blue-chip", a IBM do mercado eleitoral. Se não tem o charme dos anos 90, continua sendo líder em reconhecimento de marca. Recomendação: mantenha.

Barack Obama: Google. Ambos cresceram extraordinariamente desde seu recente "IPO" (oferta pública de ações, na sigla em inglês), são beneficiados por artigos favoráveis na mídia e se conectam com o público com uma agenda vaga de "fazer o bem". Recomendação: compre mais.

John Edwards: Krispy Kreme Donuts. Uma franquia da Carolina do Norte que tem seu charme sulista, mas demora a se conectar com clientes no plano nacional. Recomendação: venda.

Rudy Giuliani: Halliburton. Ambos tentam misturar público e privado, estavam em decadência no final dos anos 90, até que o ataque de 11 de Setembro os tirou da letargia e os lançou (para o bem e para o mal) no plano mundial. Recomendação: compre.

John McCain: General Motors. Duas marcas construídas a partir de suas fortes raízes patrióticas mas que agora patinam para manter a fatia de mercado que um dia tiveram. Recomendação: venda.

Mitt Romney: Citigroup. Ambos são "blue-chips", mas têm problemas no currículo. Assim como a empresa financeira, que tenta reposicionar a marca depois de denúncias, o ex-governador de Massachusetts quer parecer mais conservador do que é. Recomendação: mantenha.


Escrito por Sérgio Dávila às 17h02
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Homem-Aranha e a maldição do número 3

 

Veja em meu programa no UOL News.



Escrito por Sérgio Dávila às 12h22
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Exclusivo - A edição da Vanity Fair dedicada à Africa (...)

 

O site da "New Republic" traz uma paródia hilariante do que deve ser a próxima edição da "Vanity Fair", que será editada por Bono (também conhecido como "Bono Vox", mas só na imprensa brasileira). Veja abaixo o que seria o índice. Entre as "reportagens", "Como toda a miséria na África pode ser eliminada em duas semanas", por Jeffrey Sachs, o hotel de "Hotel Rwanda" é reformado por Philippe Starck, o artigo "Pessoas famintas podem ser ecológicas também". por Robert F. Kennedy Jr, e o "serviço" "Todas os bebês bonitos já foram adotados?"...

 

 

 



Escrito por Sérgio Dávila às 15h08
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Para não perder a tradição: o cardápio para o primeiro-ministro japonês

 

Poderemos nunca saber o que os presidentes Bush e Lula comeram naquela tarde em Camp David, mas saberemos o que Bush oferecerá amanhã ao primeiro-ministro japonês Shinzo Abe.

EM CAMP DAVID

Cheeseburgers

 

Onion Rings

 

Fruited Slaw

 

Apple Pie

 

Blue Bell Ice Cream

 

NA CASA BRANCA

Chesapeake Bay Crab with Yuzu Reduction

Pan-Seared Baby Shiitakes

Braised Mizuna Lettuce

 

Petite Roasted Breast of Duck, Soft Duck Egg, and Crispy Braised Duck Leg

Shaved Potato Cakes and Crispy Spring Vegetables

 

Mache and Watercress Salad with Sesame Crackers

Daikon Slaw

 

Yellow Plum Mirror

(Moist Almond Layer Cake Topped with Plum “En Gelée” Mirror,

Decorated with Flowering Plum Tree of Sugar and Chocolate)



Escrito por Sérgio Dávila às 19h32
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Fragmentos de uma mente em pedaços

"A solidão me seguiu a vida inteira. A vida de solidão me persegue aonde quer que eu vá: bares, carros, cafeterias, cinemas, lojas, calçadas. Não há escapatória. Eu sou o homem solitário de Deus."(Travis Bickle, personagem interpretado por Robert De Niro no filme "Taxi Driver")

Duas das fotos que o sul-coreano Cho Seung-hui enviou à rede de TV NBC encontram eco no filme "Old Boy", obra magistral do conterrâneo Chan Wook-Park, parte de uma trilogia que em 2004 ganhou prêmio no Festival de Cannes. A do martelo, que remete à passagem do personagem principal, que foi aprisionado por anos sem saber o motivo e, solto, resolve se vingar. E a do revólver apontado para a cabeça, que aparece no final do filme, na mão do vilão.

É impossível ver a foto em que ele aparece de colete, camiseta preta e boné virado para trás, com uma arma em cada mão e os braços abertos, e não se lembrar de passagem parecida de "Matrix", em que Neo (Keanu Reeves), o "escolhido", vinga a humanidade. O cabelo cortado pouco antes do massacre, a malhação recente, a tatuagem num dos braços e a diatribe em direção ao vídeo? "Taxi Driver".

A partir de uma aula, Cho teria passado a se chamar de "Question Mark" (ponto de interrogação), símbolo do personagem Charada, dos quadrinhos do Batman. Segundo dois colegas de quarto, além de Led Zeppelin e Nirvana, ele ouvia obsessivamente a música "Shine", da banda de rock Collective Soul, das letras:

"Teach me how to speak/
Teach me how to share/
Teach me where to go/
Tell me will love be there (love be there)/
Oh, heaven let your light shine down."

Numa tradução não-poética:
"Ensine-me como falar/
Ensine-me como repartir/
Ensine-me aonde ir/
Diga-me se o amor estará lá (amor, esteja lá)/
Ó, céu, deixe sua luz resplandecer."

São fragmentos de referências à cultura pop que podem ou não ajudar a entender a mente do maior atirador da história dos EUA. Como disse alguém no campus da Virginia Tech, tudo é prova, até prova em contrário. Talvez nunca se saiba o que levou o estudante a fazer o que parece ter feito, mas os investigadores ficaram particularmente intrigados com a ligação dele com o nome "Ishmael", que gravou algumas vezes "Ismail" ou "Ishmael Ax".

Estaria tatuado num de seus braços e foi como "A. Ishmael" que ele assinou o remetente do pacote com o tal "manifesto multimídia", na verdade um show de horrores, que mandou à emissora norte-americana. Até o momento em que eu escrevia essa coluna, na improvisada sala de imprensa montada num auditório da associação de ex-alunos da Virginia Tech, algumas hipóteses eram levantadas:

* Poderia vir do narrador de "Moby Dick", clássico de obsessão de 1851 de Herman Melville, que começa com "Call me Ishmael" (Me chame de Ismael);

* Poderia ser do livro homônimo da escritora E.D.E.N. Southworth, sobre um menino pobre que cresce nas proximidades de Washington, como acontece com o próprio Cho;

* Poderia vir do romance "The Prairie" (A Pradaria), de James Fenimore Cooper, autor de "O Último dos Moicanos", que tem um personagem com aquele nome que usa um machado ("ax");

Mas é a referência bíblica que mais preocupa. No livro de "Gênesis", do Velho Testamento, é relatado o nascimento de Ismael, filho de Abraão: "E ele será homem feroz, e a sua mão será contra todos, e a mão de todos contra ele".

 



Escrito por Sérgio Dávila às 10h31
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Bang, bang, bang, e dois caminhos se cruzam

"Bang, bang, bang."

Essa é a lembrança que Haiyan Cheng tem da última segunda-feira. São dos tiros disparados bem perto de seus ouvidos, que deixaram um zunido que persistia quando ela conversou comigo na noite de quinta-feira, por telefone, em Blacksburg, depois de termos trocado e-mails.

Professora-assistente da Virginia Tech, caminho escolhido por muitos ex-alunos como ela ao se formar, Haiyan ajuda o titular da cadeira de ciência de computação na preparação das aulas e no trato com os alunos. Chinesa, veio estudar nos EUA como o sul-coreano Cho Seung-hui e mais de 7,5% dos alunos e professores de uma universidade de 26 mil pessoas.

Até o massacre que matou 32 pessoas e o atirador, Haiyan nunca tinha ouvido falar de Cho ou o encontrado no campus. Ela se lembra que aquela manhã era mais fria e com mais vento que o habitual em Blacksburg em abril. Passou pelo escritório, checou e-mails e deixou o celular carregando _na semana anterior, tinha esquecido de fazer isso e, para desespero do marido, se viu sem carga no meio de uma suspeita de bomba no prédio.

A polícia acredita que o autor das três ameaças de bomba tenha sido Cho, como parte do plano de testar a velocidade de resposta da polícia do campus e a segurança do edifício de engenharia, futuro palco do que seria descrito por agentes veteranos como "a pior cena de crime já vista", com três dezenas de corpos espalhados por quatro classes e pelas escadas, a maioria alvejada pelo menos três vezes.

Às 8h59, Haiyan chegou ao prédio. Não sabia se sua classe era a 204 ou 205. Pelo canto dos olhos, viu que a 204 já tinha um professor mais velho. Era o sobrevivente do Holocausto Liviu Librescu, que minutos depois salvaria a vida de seus alunos e perderia a própria ao usar o corpo como barreira contra Cho, enquanto seus estudantes pulavam pela janela e se salvavam.

Às 9h, começou a aula, após abrir a janela e deixar a brisa fria entrar. O tema do dia era "Soluções numéricas de ODE", sigla em inglês para equações diferenciais ordinárias, um conceito matemático. Faltando quinze minutos para o fim da aula, ela ouve o barulho.

"Bang, bang, bang".

São vários, e muito altos. Haiyan e os alunos pensam que vêm de uma construção. O ruído pára por alguns segundos. E volta. Ela ainda não sabe, mas é Cho recarregando uma das duas armas que havia comprado nos últimos 30 dias, uma Glock 9mm e uma Walther P22. Segundo a polícia e ex-colegas de quarto, ele havia deixado seu dormitório por volta das 7h, depois de se exercitar, como começara a fazer no último mês.

Estava com o cabelo recém-cortado, coberto por um boné vinho, uma das cores da universidade, um colete bege em que levava pentes com munições e uma mochila com duas facas. Nos próximos minutos, mataria dois estudantes num dormitório vizinho, voltaria a seu quarto, número 2121, indicado por um peixe na entrada com o nome dos dois moradores, "Joseph + Seung-hui", concluiria seu "manifesto multimídia", colocaria no correio às 9h01.

E caminharia até o prédio onde Haiyan dava aula. É Cho descarregando parte do que a polícia acredita ter sido até 250 tiros que a professora-assistente ouve agora. Então, a pausa. Ela iria iniciar outro tópico quando os barulhos recomeçaram. "Bang. Bang". Uma aluna chamada Teresa vai para a porta; ela a segue, com as anotações ainda na mão.

Pela porta entreaberta, vê um rapaz passar. Só por um segundo, mas percebe que ele leva uma pistola preta em uma das mãos, que se veste de preto e tem o rosto arredondado. Ela e Teresa se viram e correm. Haiyan ouve um barulho quase ensurdecedor, seguido de um objeto que zune a seu lado e se aloja na madeira do palco onde fica a mesa.

Um aluno indiano sugere uma barricada. Outros três o ajudam na empreitada. Os tiros continuam no corredor, com uma parede separando-os de Cho. Que pára, volta-se e tenta entrar na classe. Ele empurra a porta, que empurra a mesa, mas os quatro alunos a empurram de volta. Cho dispara várias vezes.

Dois estudantes já estão chamando a polícia pelo telefone. Quatro garotas se jogam no chão. Os disparos continuam, agora cada vez mais longe da porta. Haiyan se ajoelha e começa a rezar. "Por favor, faça com que ele pare, por favor, faça o barulho das balas cessar", é o que pede. Então, ela e seus onze alunos ouvem sirenes, mais alguns disparos. E o silêncio chega.

Em segundos, alguém bate na porta. É um policial, que procura por sobreviventes. A professora-assistente lidera os alunos e, na escada, pega na mão de Lisa, outra das alunas, para que desviem das poças de sangue no chão. Depois, um dos paramédicos se lembraria que, enquanto ele e os colegas recolhiam os 33 corpos, os celulares dos mortos não paravam de tocar.

São familiares, amigos e colegas, que já sabem do tiroteio e tentam entrar em contato com as vítimas. A sinfonia persistia enquanto os corpos entravam nos prontos-socorros. Sem celular, Haiyan pede o laptop emprestado de um dos que trabalham no resgate e manda um e-mail ao marido: "Sobrevivi", resume. Ao repórter, concluiria o relato: "Temos de valorizar cada minuto da vida".

Soldados da polícia estadual da Virgínia no campus no dia seguinte ao massacre

Uma pedra para cada vítima (acima) e a homenagem dos alunos da Virginia Tech



Escrito por Sérgio Dávila às 10h27
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Casa dos pais de Cho está abandonada

A entregadora do Fedex se aproxima do número 14.713 da Truitt Farm Drive, uma rua sem saída típica dos bairros de classe média dos subúrbios norte-americanos, na cidade de Centreville, no Estado da Virgínia, a 40 minutos de Washington. Bate na porta algumas vezes. Volta ao caminhão com o pacote e retorna com um aviso de que houve uma tentativa de entrega. No destinatário, ela escreve simplesmente o sobrenome "Cho".

Descontada a declaração da irmã, os pais do estudante ainda não falaram em público. A casa de dois andares e três quartos em que moram os tintureiros Cho Sung, 61, e Cho Hyang, 56, está vazia desde terça-feira, quando agentes do FBI apareceram para ouvi-los. Naquela noite, a polícia federal norte-americana conversou com os dois e saiu da casa com caixas de papelão com material recolhido dentro e nos arredores da casa.

Desde então, os pais dele desapareceram. Segundo a polícia do Estado da Virgínia, estão sob proteção do FBI. A casa está vazia, e os vizinhos tentam voltar á vida normal. Quando a reportagem da Folha visitou o local, na manhã de ontem, apenas uma equipe de uma televisão sul-coreana fazia imagens do local. Passado o assédio principal da imprensa, os vizinhos querem ver passar a fama involuntária.

Uma delas sai para correr e, quando vê os jornalistas, desiste e volta para a casa. Os cones vermelhos colocados pela polícia para impedir a entrada de carros de não-moradores já foram removidos. Cinco casas à esquerda do sobrado bege onde Cho passou boa parte da adolescência e alguns finais de semana recentes, um morador colocou uma placa de "vende-se". Ele sabe que vai perder dinheiro.

Antes do massacre, uma casa aqui saía por até US$ 500 mil. Agora, ninguém sabe se alguém vai querer mudar-se para cá. Dispostos a falar logo após o incidente, os vizinhos agora evitam falar, ameaçam chamar a polícia ou pedem para dar declarações sem ser identificados. Alguns especulam que os pais de Cho possam colocar a casa à venda e voltar para a Coréia do Sul ou mudar de cidade ou Estado.

A dez quarteirões está a Igreja Presbiteriana Sul-Coreana Young Saeng, freqüentada pelos pais de Cho até recentemente e importante ponto de encontro de uma comunidade que chega aos milhares em Centreville e nas cidades próximas, como Chantilly. É nela que fica a Westfield Highschool, onde Cho fez o segundo grau. Da casa dos pais até a escola, Cho levava menos de meia hora a pé.

No caminho, passa-se pela loja Cox Farms, de produtos agrícolas, que colocou a placa: "Hoje, somos todos Hokies", alusão ao apelido dos times esportivos da Virginia Tech. Na entrada da Westfield, uma placa lembra duas das vítimas de Cho que estudaram na mesma escola que ele. Alunos chegam para a aula usando camiseta ou agasalho da universidade, bordô e laranja. Três meninas choram no estacionamento do colégio.



Escrito por Sérgio Dávila às 14h16
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Grindhouse - O de Tarantino é ótimo, o de Rodriguez, nem tanto

O problema de "Grindhouse", novo filme da dupla Quentin Tarantino-Robert Rodriguez, é o mesmo problema dos parques temáticos da Flórida ou das réplicas de monumentos históricos de Las Vegas: a falsa noção muito norte-americana de que a reprodução pela reprodução já é homenagem suficiente e se basta como valor artístico.

No caso de "Grindhouse", que estreou na sexta-feira retrasada aqui nos EUA e chega ao Brasil no semestre que vem, o foco da homenagem é o gênero que batiza o próprio filme, que teve seu auge nos anos 60 e 70 e cuja característica básica era baixo orçamento, muita violência, algum terror, algum sexo.

Rouba seu nome das salas de cinema que mostravam duplas atrações ininterruptamente, as tais "grindhouses". "Grind" é "moer" ou "ranger", em inglês, mas também um tipo de dança do começo do século. Quando os teatros em que essa dança tinha lugar viraram salas exibidoras de filmes B, ganharam o nome; o equivalente mais aproximado no Brasil é "cinema pulgueiro".

Pois um dos freqüentadores das tais sessões duplas viraria o cineasta Quentin Tarantino, que baseou sua carreira em homenagear gêneros de cinema que o marcaram quando jovem. Às vezes faz obras-primas, como "Cães de Aluguel" e "Pulp Fiction", às vezes filmes apenas acima da média, caso de "Jackie Brown" e dos dois "Kill Bill".

"Grindhouse" não é uma coisa nem outra. Lembra os barzinhos de chope que pululam em São Paulo e tentam reproduzir o "boteco carioca" ou o "boteco antigão do Centro": como a "Torre de Pisa" de Las Vegas, quase chegam lá ao recriar os originais, mas falta a eles em alma e experiência o que lhes sobra em plástico, limpeza e ambiente controlado _e aspas.

Além disso, os filmes B originais eram B porque custavam pouco. "Grindhouse" levou US$ 60 milhões dos irmãos Weinstein, um dos projetos mais importantes da nova empresa dos produtores desde que venderam sua Miramax à Disney. O público não apareceu; deu US$ 11 milhões de bilheteria na estréia, outros US$ 9 milhões no último fim de semana.

Parte do problema, disseram os analistas, seria a duração: 3 horas e 11 minutos. Pode ser, mas esse crítico acha que é o que é mostrado nesse tempo todo que afugentou o público. A começar pela desigualdade na qualidade dos dois filmes.

O primeiro, "Planet Terror" (planeta terror), de Rodriguez, é vários pontos abaixo do de Tarantino, "Death Proof" ("à prova de morte", característica de um carro que é o personagem principal), e a justaposição dos dois filmes deixa isso evidente. Deixa evidente também como esse é um verdadeiro cineasta, enquanto aquele é apenas um competente fazedor de filmes.

Em "Planet Terror", Rodriguez recria sem muita imaginação "A Noite dos Mortos Vivos", de George Romero, com uma mudança aqui e outra ali no roteiro e muitas citações aos filmes que vieram depois do clássico de 1969. O destaque é o personagem de Rose McGowan, que ganha uma metralhadora como prótese depois de sua perna direita ser devorada por um dos zumbis. Bizarro, e só.

Já "Death Proof" usa um psicopata que é motorista dublê de filmes (Kurt Russell, em grande momento canalha) como desculpa para Tarantino fazer o que faz melhor: diálogos recheados de citações à cultura pop que roubam a atenção do espectador para uma história que, de outra maneira, seria boba.

Há conversas sobre um possível "desmembramento" dos filmes, que teriam a duração aumentada e seriam relançados separadamente. Pode ser que cheguem nesse formato ao Brasil. Ganhará o espectador.



Escrito por Sérgio Dávila às 14h11
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