Crash
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De vez em quando, o cinema faz a gente pensar. Hoje é um desses dias. A Mostra está pegando fogo e você tem de fazer uma escolha de Sofia (ou sábia): Meu plano infalível: só por hoje, deixe a Mostra de lado e vá ver “Crash”, que vai estar muito menos lotado e é garantia de diversão e arte. “Crash” é um filme novo, recém-lançado nos EUA (bem, faz alguns meses). Não é o “Crash” do cineasta canadense David Cronenberg, de 1996, aquele em que as pessoas só conseguiam prazer sexual transando com quem fosse muito deformado por acidentes de carro, com elenco encabeçado pelo mega-diferentão David Spader e a musa dos anos 80 Rosanna Arquette. O “Crash” de hoje é o primeiro longa-metragem dirigido por Paul Haggis, que também assina o roteiro do excelente “Garota de Ouro”, que fez Clint Eastwood levar para casa mais um merecido Oscar no ano passado. O roteiro tem algo de “Short Cuts” – como o filme de Robert Altman, se passa em Los Angeles e tem várias histórias, de personagens que não têm nada a ver um com o outro, mas que em um momento da vida se encontram. E o tema, que em “Short Cuts” era Hollywood, é bem mais provocador: o racismo e a intolerância. Assim, um policial branco racista e seu parceiro idealista, dois ladrões negros, um casal negro rico, um casal branco rico, um dono de venda árabe, outro dono de venda, esse coreano e um casal de trabalhadores hispânicos se encontram, todos a partir de uma batida de carro em Los Angeles. O condado formado por várias pequenas cidades, entre elas Hollywood, Beverly Hills e outras menos famosas, é conhecido por ser o lugar em que as pessoas andam as menores distâncias de carro. Ninguém anda à pé, pouco pegam ônibus ou metrô e os táxis são caríssimos e difíceis de encontrar. Assim, dentro de suas “caixinhas” de metal de vidro – e “caixinha” é bondade minha, já que lá é a terra dos SUVs –, os habitantes da cidade ficam protegidos uns do outros, quase sem contato com os povos de outras raças. Estão todos lá, um prestando serviço ao outro, dando ordens, vendendo bebidas. Mas sem nenhum contato mais profundo, sem nada que faça com que os preconceitos sejam combatidos. Mas quando algo ameaça a ordem, quando algo tira o véu que cobre a poeira de cima dos móveis, os preconceitos vêm à tona. Aí, o filme passa a ter mais a ver com “Faça a Coisa Certa”, obra prima de Spike Lee, de 1989. Aquela mesma sensação de que o problema racial nunca vai se resolver e que os clichês não param de se provar verdadeiros tomam conta da narrativa. O elenco tem nomes conhecidos, todos em papéis surpreendentes. O galã Matt Dilon, que andou dando uma de arroz de festa no Brasil no mês passado, é o policial racista; seu parceiro “do bem” é Ryan Phillipe. Sandra Bullock, a estrela mais perdida de Hollywood, se sai bem como a perua rica que tem medo do chaveiro hispânico – e ela também é produtora do filme. Thandie Newton está linda e convincente como a mulher do produtor de cinema negro. Don Cheadle, ótimo como sempre, emociona como o policial honesto que tem um irmão bandido. E o resto do elenco não é conhecido – nem o coreano, nem o iraniano são nomes famosos. Por que será?
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